Um grande exemplo é muito mais do que realizar uma grande obra

27/07/2015

Soyecourt         

 

           “A 24 de julho de 1784 recebia o véu no Carmelo Mademoiselle Camille de Soyecourt [1757-1849], filha da mais alta nobreza da França. Jovem, entretanto, tão franzina e sofrendo, segundo os médicos, de uma moléstia incurável do coração, que todos julgavam não poder permanecer mais que seis meses no convento. Contudo, ela não somente sobreviveu muitos anos, como sem dúvida sua personalidade teve destaque notável, embora desconhecido, na preservação do Carmelo de Paris durante a Revolução.
          Em 1792, seu convento foi invadido e as religiosas dispersas. Irmã Camille, liderando um grupo delas, instalou-se numa casa firmemente decidida a manter vivo o espírito carmelitano. Denunciada, a pequena comunidade foi presa. Quando obteve a liberdade. Mademoiselle de Soyecourt refugiou-se em casa de sua família, mas por pouco tempo, pois seus pais e duas irmãs foram encarcerados. Após numerosas peripécias, empregou-se numa fazenda. Durante todo esse tempo não deixou de cumprir o mais rigorosamente que pôde os preceitos do Carmelo: jejuava, recitava o Ofício nas horas devidas e confessava-se, com grande dificuldade, semanalmente, com um padre refratário [Nota: que recusou aceitar a Constituição civil do clero, imposta pelos revolucionários]. Um dia teve a notícia da condenação de seus familiares, todos guilhotinados. Soube então que sua irmã deixara um filho, pequeno ainda.
          Apesar de sua dolorosa situação, Irmã Camille, até a morte foi tutora do sobrinho. Expulsa da fazenda onde trabalhava, pois a morte de seus pais traiu sua pessoa, a religiosa mendigou algum tempo. Tendo encontrado uma irmã de seu convento, decidiu restabelecer sua Ordem. Com o dinheiro das esmolas e com o auxílio de padres refratários, obteve a capela de um seminário, recomeçando os ofícios religiosos. Terminado o Terror; Mademoiselle de Soyecourt, então uma figura alta, pálida, grave e suave, decidiu re-obter para seu sobrinho e para seu convento, a fortuna de seus pais. Causava espanto aos notários e homens da lei, a presença dessa mulher paupérrima, falando de milhões, de venda de terras e de compra de imóveis. Mas conseguindo integralmente o que desejava, a religiosa chamou para junto de si as suas irmãs, dispersas.
          E no convento carmelita de Paris reinstalou sua comunidade. Aí ela viveu mais de 45 anos, não sem problemas. Por exemplo, em janeiro de 1811 Fouché [1759-1820, em sua juventude ingressou no seminário onde se ordenou religioso da ordem dos Oratorianos; após dez anos abandona seu cargo de professor no seminário para entrar em política; exerceu seu poder durante a Revolução Francesa e o império napoleônico; foi o fundador das modernas polícias políticas e de suas espionagens] foi informado de que uma senhora carmelita, superiora do Carmelo ocupava-se ativamente em copiar e distribuir a Bula de excomunhão… do próprio imperador. Foi por isso presa num lugar bem distante do convento, o que não a impedia de atender sua comunidade, fazendo-lhe visitas inteiramente disfarçada, e passando, desse modo, diante dos guardas, com toda segurança. A Restauração tirou-a desse exílio. Quando suas dificuldades morais pareceram diminuir, começaram, as físicas. Seu corpo tornara-se quase diáfano, por causa dos jejuns e penitências. Aos 85 anos, ainda dormia sobre uma tábua, apesar da gota dolorosíssima e de dores de estômago que não lhe permitiam repousar. Ela manteve, entretanto, como sempre em sua vida, inalterável bom humor e sua proverbial intrepidez. Repleta de dores, veio a falecer, em 1849, aos 92 anos de idade”.
(G. Lenotre, “Vieilles maisons, vieux papiers”, 2ème série, Perrin, Le roman d’une carmélite, pags. 343-359:)

 

Comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP, em 17.2.1970:

Os senhores tem ouvido falar a respeito do “rio chinês” [expressão utilizada para significar um itinerário cheio de voltas, de dobras e de surpresas, como seria o de algum caprichoso rio chinês]. Eu queria que os senhores se colocassem nessa biografia, não na posição de um mero leitor, mas de quem a viveu. Porque são coisas muito diferentes a gente ler agora essa vida, acabar e dizer: “que grande mulher foi a mademoiselle Camille de Soyecourt!” Outra coisa é a gente se imaginar dentro de sua pele.
A gente vê, então, tudo quanto foi acontecendo para ela, como sendo uma coisa com uma vocação definida, um objetivo muito definido, ela adentrou esse objetivo com todo o empenho de sua alma. Quando os senhores vão ver o curso da vida, dão se conta de que foi tipicamente do “rio chinês”. Quer dizer, ela ser carmelita, entra no Carmelo, forma-se. Ela poderia esperar, por exemplo, uma vida como a de Santa Teresa, a Grande, ou então uma vida de Santa Teresinha. Ou seja, uma vida inteira transcorrida no Carmelo, com essas ou aquelas dificuldades, mas dentro da vida carmelitana. Com certeza ela tinha tido mil apetências, sugeridas pelas graça, para isso.
E o que acontece? Em vez de ela ter essa vida, vem a Revolução Francesa e vai para o cárcere. Vamos dizer quer tenha pensado em martírio: “Vou dar a minha vida, vou ficar uma santa. Está bem, aceito com todo gosto!” Conformidade. Foi posta em liberdade. Posta em liberdade esperava viver, ao menos sozinha, para Deus, mas se transforma em chefe de família, apesar de solteira. E fica tutora de um “bambino” [seu sobrinho] que tem que criar, formar etc., etc. Era uma moça rica e perde a fortuna. Os pais vão para a guilhotina, e ela se torna criada numa fazenda, ou seja trabalhadora manual.
Então, ela tinha dado sua vida, que começa nascendo nobre, acaba em religiosa e depois desfecha em ser trabalhadora manual em fazenda. Nada exclui – a biografia aqui não entra nesses pormenores – que tenha tido que limpar estábulos, limpar vacas e fazer outras coisas ultra prosaicas desse gênero, quando não era fazer serviço prosaico para os donos da fazenda, talvez coisa pior do que tratar das vacas. Ela toca para frente. É posta fora desse emprego e se torna mendiga. Mendiga com o menino.
Começa a mendigar de um lugar para outro. De repente a Revolução Francesa passa e ela se transforma em mulher de negócios. E começa a visitar cartórios para recompor a fortuna a que tinha direito…
Os senhores estão vendo como tudo isso é completamente contrário ao que ela quer. Mas ela continua sempre com o mesmo objetivo: ser carmelita! A tal ponto que reconstitui o Carmelo. Reconstituído o Carmelo, nele entra para lá recomeçar a vida normal de carmelita… Prisão! Prisão até o tempo dos Bourbons. Prisão longe, uma espécie de exílio, uma coisa assim. Novamente sua vida de carmelita se interrompe. Afinal volta para o Carmelo, porque voltam os Bourbons, que restabelecem a ordem de coisas normal. Volta para o Carmelo.
Dir-se-ia então que ia levar uma vida tranqüila como carmelita que, afinal, está no seu convento e começa a rezar. Mas inicia outro gênero de provação. Dir-se-ia: “Bem, coitada, é a fase final. Agora então vai morrer daqui a pouco e vai repousar em Deus”… Não senhor! Nada de repousar em Deus. Lutar na terra até o último alento! Então fica vivendo até os noventa e tantos anos, sempre praticando penitência, modelo de religiosa, agüentando as doenças nas costas, e afinal de contas morre numa idade que, com certeza, nunca podia imaginar que ela atingisse depois de tantas doenças e outras provações.
Agora nós vamos perguntar, aos olhos do espírito moderno, como considerar isso: foi uma vida frustrada ou foi uma vida realizada? É a pergunta que a gente deve fazer. Para os homens de espírito moderno foi uma vida frustrada. Porque a vida realizada seria se ela tivesse entrado no convento e tivesse ficado religiosa direitinho até o fim. Como teve coisas que atrapalharam a vida dela e a obrigaram a ser uma porção de coisas que não queria, ela cem vezes durante a vida deveria ter se sentido frustrada, deveria ter abandonado a vocação. Afinal de contas quando veio, dentro da vocação, a doença, ela poderia ter dito: “Não tem mais solução! Deus me entregou! Porque agora que eu poderia levar a vida normal de uma carmelita, começo a levar uma vida de doente!…”
Nós, entretanto, dizemos que foi uma grande vida realizada. E é impossível os senhores terem ouvido essa ficha sem sentirem a maior admiração por ela.
Mas então perguntamos: o que é a realização? E é aqui que entra o choque do homem do mundo contra o espírito católico. Por que no que ela foi martirizada segundo o espírito da Igreja? No que, segundo o espírito do mundo, ela não foi realizada? Segundo o espírito do mundo, ela não foi realizada porque não levou a vida que quis, não realizou a obra que empreendeu. Em última análise, a noção de “realizado” segundo o mundo é ou a de um indivíduo que levou a vida que quis, ou de um indivíduo que ganhou muito dinheiro. Estão aqui os dois conceitos de homem realizado.

Ora, ela não ganhou muito dinheiro e não levou a vida que quis. Logo ela não foi realizada. Mas é impossível nós ouvirmos a leitura dessa ficha sem vermos que ela foi realizada. Então o que é, no sentido verdadeiro da palavra, a realização? A realização não é o que o mundo pensa, mas realização é algo diverso. A realização é – antes de tudo – realização de si mesma. Antes de tudo não digo no sentido supremo, mas no sentido mais imediato. É a realização de si próprio.
Em outros termos, a gente vê que ela realizou uma grande personalidade, foi uma pessoa de grande virtude e que no esplendor de sua virtude manifestou numerosas qualidades até naturais de que a Providência a tinha dotado. Quer dizer, ela tirou de si tudo quanto potencialmente tinha. Levou até à perfeição mil coisas que nela estavam potencialmente, como uma semente que deu inteiramente uma esplendida árvore. Então, o realizar-se – nesse sentido mais imediato da palavra – é o atingir a sua própria perfeição. Se fez o que quis ou não fez, não tem importância. A importância é ter chegado à sua própria perfeição. Isso sim! Essa é a primeira noção.
Segunda noção: vemos que ela realizou essa perfeição não através de uma série de fracassos que tenham ficado em fracasso. Mas vemos que sua vida tem uma continuidade. Essa continuidade, esse plano não era assim que ela queria, mas eram planos que Deus tinha a seu respeito. Ela fez a vontade de Deus!
Em que sentido se deve tomar essa afirmação? No seguinte sentido: quando acabamos de ler essa vida, vemos a grande obra dela para a glória de Deus entre os homens. E que não foi tanto de acabar fundando um convento – que é uma obra excelente – mas uma coisa muito maior do que fundar um convento: é ter deixado um grande exemplo! Ser um grande exemplo de perseverança, um grande exemplo de resolução, um grande exemplo de força de alma, de confiança na Providência Divina, de obediência aos desígnios de Deus nas circunstâncias mais adversas da vida. De maneira que enquanto sua memória for conhecida pelos homens, haverá homens fracos, em condições difíceis, que terão um alento maior parta enfrentar as dificuldades da vida, por causa de seu exemplo. E ela será a força dos fracos, será a luz daqueles que estiverem na incerteza, na penumbra, enquanto a memória dela se guardar entre os homens. Por que? Porque foi o grande exemplo que ela deixou. E deixar um grande exemplo é uma coisa muito maior do que fazer uma grande obra.
Um grande convento é uma coisa esplendida. Mas se um grande convento não fosse um grande exemplo, não adiantava de nada. Quer dizer, abaixo do culto a Deus, a melhor coisa que podemos fazer é edificar por nosso exemplo. As nossas palavras e as nossas ações vêem abaixo do exemplo. As palavras movem, o exemplo arrasta. Ela deixou um exemplo de força de alma! Tanto mais que a gente percebe em sua biografia que através de todas as incertezas de sua vida ela foi sempre forte. Nunca ela se sentiu quebrada, sempre caminhou para a frente cumprindo o dever de acordo com o que queria a Providência, sem perder a unidade do que estava fazendo. Mas entendendo que realizando o dever do momento, ela fazia a vontade de Deus.
No Céu, ela está vendo essa unidade que Deus quis e talvez não tivesse calculado que o exemplo dela irradiasse tanto, que pudesse ser tão conhecido. É uma pessoa extraordinária, que talvez ainda venha a ser canonizada. Isso é a vida de uma pessoa que cegamente vai seguindo diante das dificuldades, e fazendo, e agindo e não se incomodando. No fim vem a glória, a glória de ter dado um bom exemplo obedecendo a Deus. Parece-me que essa é a grande lição que a ficha do “Santo do Dia” de hoje nos ensina.

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