800px-Leonardo_Gasser_Abschied_der_Maria_Stuart_1866

 

A História dá exemplo de vários reis e rainhas que, enquanto tais, tiveram uma atuação e um comportamento muito a desejar, tanto por seus erros como por suas omissões, tanto na esfera política como no campo moral.

Tais governantes, entretanto, confrontados com uma situação de infortúnio, que para eles se configurava como a condenação à morte violenta, souberam encará-la com serenidade e espírito de fé, transformando o cadafalso em que subiram no pedestal de sua própria grandeza.

Desses exemplos históricos, escolhemos o de duas rainhas, que parecem ser dos mais significativos: Maria Stuart e Maria Antonieta.

Maria Stuart (1542-1587) foi rainha de França, enquanto esposa de Francisco II, de 1558 a 1560. Com a morte prematura do jovem e debilitado rei, voltou ela à Escócia para ocupar o trono de seu país natal, a que tinha direito como única filha legítima do finado rei Jaime V.

Entretanto, seu comportamento como rainha da Escócia, especialmente do ponto de vista moral, foi bastante reprovável. Não só introduziu na corte escocesa os divertimentos renascentistas vigentes na corte francesa, como se tornou conivente com uma conspiração que eliminou seu segundo marido, Lord Henry Darnley, para poder casar-se com seu favorito, o Conde Bothwell, cabeça da referida conspiração. Este fato provocou um levante contra ela, obrigando-a a fugir do país. Imprudentemente, pediu asilo à sua acérrima e mal disfarçada inimiga Elizabeth I, da Inglaterra, que a conservou prisioneira por quase 20 anos, terminando por mandá-la executar a pretexto de seu suposto envolvimento numa conspiração que se destinava a matar a soberana inglesa.

Diante da morte, Maria Stuart conservou uma fidelidade total à sua fé católica, da qual nunca se afastou, mesmo em seus piores momentos, e fez questão absoluta de morrer como católica, recusando todos os ministros hereges que lhe eram oferecidos. A maneira como se portou diante do infortúnio lhe conferiu o halo de grandeza com que seu nome aparece na História.

 

76px-Marie-Antoinette_par_Elisabeth_Vigée-Lebrun_-_1783

Sobre a transformação sofrida por Maria Antonieta (1755-1793) diante do infortúnio, assim se exprimiu o Prof. Plinio Corrêa de Oliveira:

“Em pleno desabamento do edifício político e social da monarquia dos Bourbons, quando todos sentiam o solo ruir sob os pés, a alegre arquiduquesa d’Áustria, a jovial rainha de França, cujo porte elegante lembrava uma estatueta de Sèvres, e cujo riso tinha os encantos de uma felicidade sem nuvens, bebia, com dignidade, com sobranceria e com resignação cristã admiráveis, os goles amargos da imensa taça de fel com que resolvera glorificá-la a Divina Providência.

“Há certas almas que só são grandes quando sobre elas sopram as rajadas do infortúnio. Maria Antonieta, que foi fútil como princesa e imperdoavelmente leviana na sua vida de rainha, perante o vagalhão de sangue e miséria que inundou a França, transformou-se de modo surpreendente. O historiador verifica, tomado de respeito, que da rainha surgiu uma mártir, da boneca uma heroína…”

(Revista Catolicismo, n° 463, Julho de 1989).

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Santo Amando, bispo de Maastricht, dita seu testamento. Vida e milagres de Santo Amando, século XII. Biblioteca Municipal de Valenciennes, Ms.501, f.58v-59
Santo Amando, bispo de Maastricht, dita seu testamento.
Vida e milagres de Santo Amando, século XII.
Biblioteca Municipal de Valenciennes, Ms.501, f.58v-59

 

No livro “Charlemagne” de Alphonse Vétault (Tours, Ed. Alfred Mame et fils, 1876) se encontra uma Epístola ad Baugulfum abbatem Fuldens.

É uma carta do imperador Carlos Magno endereçada a esse abade de Fuldens:

Carlos, pela graça de Deus, rei dos Francos e dos Longobardos, patrício dos Romanos, em nome de Deus Todo-Poderoso, saudação.

Há frases aqui que cantam e tem uma grandiloquência que não se sabe como elogiar: “Carlos, pela graça de Deus, rei dos Francos e dos longobardos, patrício dos Romanos, em nome de Deus todo poderoso, saudação”.

Numa saudação está tudo dito.

Saiba vossa devoção a Deus, que depois de ter deliberado com nossos fiéis, estimados que os bispados e mosteiros que, pela graça de Cristo, foram colocados sob nosso governo, além da ordem da vida regular e as prática da nossa santa religião, deve, também aplicar seu zelo ao estudo das letras, e ensinar aqueles que com auxílio de Deus, possam aprendê-las, cada qual segundo sua capacidade.

Assim, enquanto a regra bem observada sustenta a honestidade dos costumes, a preocupação de aprender e de ensinar, de bem aprender e de ensinar, põe a ordem do idioma, de maneira que aquele que queiram agradar a Deus vivendo bem, não lhe negligenciaram de lhe agradar falando bem.

O pensamento, muito interessante, é este:

Pela graça de Nosso Senhor Jesus Cristo há, em nosso reino, muitas dioceses e abadias.

Nós queremos que essas dioceses e abadias se empenhem em ensinar a ler as pessoas que estejam em condições de aprender, com a graça de Deus.

Soror Baldonivia escrevendo. Vida de Santa Radegunda, século XII. Mediateca François Mitterrand, Poitiers
Soror Baldonivia escrevendo. Vida de Santa Radegunda, século XII.
Mediateca François Mitterrand, Poitiers

 

Porque ensinar a ler, naquele tempo, parecia uma coisa muito difícil. Eram poucos os que sabiam ler.

Então, parecia especialmente próprio pedir a graça de Deus para que alguém apren¬desse a ler.

Era um tempo muito próximo da invasão dos bárbaros, e aquele passado bárbaro próximo inspirava um certo arrepio quando se tratava de aprender a ler e escrever.

Então, ele diz: que aprendam a ler e escrever os que possam. Por quê?

Porque é conveniente que aqueles que louvam a Deus vivendo de um modo digno, também aprendam a louvar a Deus falando de um modo digno.

Os senhores vejam que linda ideia. A ideia de que a virtude traz consigo todas as espécies de boas maneiras, de boas atitudes.

E que, portanto, aquele que é virtuoso deve normalmente tender a falar bem, a se exprimir bem, a fazer bem feitas todas as coisas.

Como no Evangelho está dito de Nosso Senhor Jesus Cristo: Ele fazia bem tudo quanto Ele tinha de fazer.

Então, os senhores tem aí um princípio que é muito caro a nós, e que é muito pouco caro a um catolicismo deturpado.

E é o princípio de que a religião é empenhada próxima e diretamente em promover a salvação das almas.

São João Evangelista escreve o Apocalipse.
As Sagradas Escrituras exigiam a alfabetização maciça dos fiéis.

 

Mas que como uma espécie de corolário, ela tem empenho em favorecer toda espécie de bem, de beleza, de dignidade de vida e de esplendor de existência entre os homens.

Que isto, por sua vez, dá glória a Deus e por sua vez facilita a virtude.

Os senhores tem aí um aspecto profundamente anticatólico das teologias modernas como a da Libertação, cujo efeito normal é tender para o primarismo, para as péssimas maneiras, para a sujeira, para a ostensiva falta de compostura.

Isso não só é incompatível com a religião, mas desvia as almas da verdadeira religião.

Porque Deus sendo autor de todas as formas de ordem, umas formas de ordem se apoiam nas outras; e aqueles que sabem, por exemplo, comer dignamente, falar corretamente, postar-se decentemente tem nisso um apoio para a virtude.

Essa é a ideia fundamental que Carlos Magno exprime.

Ideia fundamental que a Igreja teve em mente durante toda a sua existência, e que na Idade Média é patente.

Toda a elevação da civilização da barbárie até o estado generalizado em que se encontrava no fim da Idade Média, se deveu a esse princípio.

(Autor: Plinio Corrêa de Oliveira, excertos de conferência pronunciada em 6/1/73. Sem revisão do autor)
(www. gloriadaidademedia.blogspot.com)
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Interessante mostra em Versalhes despertou a admiração do público, atraído pela beleza e elevação cultural de séculos passados

Marcelo Dufaur

Paris –– A mão é de um adolescente apenas saído da infância. Delicada e régia, franzina e forte, envolvida em rendas e sedas, pérolas e pedras preciosas, esboçando um gesto discreto mas soberano, a mão de Luís XIV na idade de assumir o trono foi o símbolo escolhido pelos organizadores da exposição “Fastos de corte e cerimônias reais”, que teve lugar no palácio de Versalhes [foto ao lado].

A mostra ressaltou o espírito aristocrático na Europa dos séculos XVII e XVIII, expondo desde vestimentas para grandes ocasiões, como coroação de reis e bodas reais, até peças usadas por monarcas, nobres e ricos-homens, passando por uma variedade sutil de situações intermediárias. Mistura de vida de família e de atividade pública de governo, a vida de corte era refinada e exigente.

Eis logo na entrada as roupas usadas por Jorge III [foto à direita] da Inglaterra no dia de sua coroação em 1761, graciosamente emprestadas a Versalhes pela sua descendente, a rainha Elisabeth II. O traje é todo bordado com fios de ouro, eclipsado pela impressionante cauda em veludo vermelho e arminho. O conjunto é de uma pompa soberana, e só foi usado para a cerimônia religiosa e temporal da unção do rei, realizada na abadia de Westminster soberbamente enfeitada, repleta de nobres, autoridades e representantes dos órgãos sociais intermediários do reino. Nesses trajes, coroado e levando nas mãos o cetro e o globo, o novo rei era como um hífen entre Deus, fonte de todo poder, e o povo inglês. Nenhuma proporção com a esquálida cerimônia de posse de um presidente da República nos dias de hoje…

*    *   *

No mesmo salão foi exposta a vestimenta da rainha Sofia Madalena da Suécia, no dia da coroação, 29 de maio de 1772. Ornada de ouro e prata, as vestes da nova rainha provinham de uma reforma de modelos antigos, com forte influência espanhola.

As cores branca e prateada representavam a luz divina, a pureza, a inocência e a perfeição. No vestido da rainha sobressai uma cauda de 5 metros, presa ao corpo com botões de prata maciça [foto à direita].

Outro grande acontecimento da vida de corte eram as reuniões periódicas das Ordens de Cavalaria. Ainda hoje ocorre anualmente a da Ordem da Jarreteira, na Grã-Bretanha, em que se usam uniformes como o do rei Jorge III [foto à esquerda], porém com adaptações.

Pomposo é o uniforme da Ordem do Espírito Santo, criada pelaCasa real da França [foto à direita].

As vestes das cortes diferenciavam-se por uma sapiencial gradação, desde as que se usavam nas grandes cerimônias até às vestes para os afazeres ou despachos quotidianos. A etiqueta e o protocolo respeitavam essa variedade de circunstâncias.

Exemplos de roupa de corte para a vida diária são as de veludo verde com guarnições douradas, portadas pelo imperador russo Alexandre I, e as do mesmo imperador no tempo em que era príncipe herdeiro, em vermelho coral [foto ao lado]. Seguiam a moda da França nos tempos de Luís XVI. Também servem como exemplo as roupas de caça oferecidas por Luís XV a Cristian VII, rei da Dinamarca, em 1768.

Porém nenhuma Ordem real atingiu a categoria e o prestígio da Ordem do Tosão de Ouro [foto à direita]. Criada em 1430 por Filipe o Bom, duque de Borgonha, tinha como finalidade suprema a defesa da fé cristã.

Não só os grandes nobres participavam desse deslumbramento. Beneficiavam-se também os membros dos diversos graus da nobreza e da burguesia européia, e ainda as incipientes nobrezas americanas, como mostra a robe paréeencomendada em Paris por uma dama canadense em 1780 [foto à esquerda].

O esplendor das cortes descia para todas as classes sociais, numa cascata de beleza e dignidade que as elevava. Um exemplo comezinho disso são as librés concedidas a criados e funcionários dos palácios, como a libré da casa real francesa, em uso quatro anos antes que a Revolução Francesa, movida pelo ódio contra toda hierarquia e nobreza, a abolisse em nome da igualdade. Não menos pomposa é a dos servos da casa real da Suécia em 1751 [foto à direita].

No Ancien Régime, período em que se concentra a exposição, as cortes da Europa não apenas se inspiravam na corte francesa, mas mandavam confeccionar em Paris as melhores vestimentas, que depois ficaram guardadas como preciosas relíquias culturais. Da França, porém –– tremendamente castigada pelo ódio destruidor da Revolução Francesa, que incendiou palácios e toda espécie de bens dos reis e da nobreza em geral –– nada ficou para ser exposto, a não ser quadros nos quais aparecem as vestimentas da corte de Versalhes.

Após 1789, a feiúra republicana foi tomando conta da vida pública. A vida de família foi separada da vida oficial, e esta ficou em mãos de grupos partidários.

*    *    *

Na visita à exposição, com facilidade perde-se a noção do tempo e também da época. Aquelas vestimentas, cuidadosamente iluminadas num décor de sombras, falam de um mundo feérico, de uma imagem temporal do que pode ser a glória celeste que envolve os santos no Céu.

Com efeito, aquele prodigioso conjunto de trajes é um dos tantos frutos da civilização cristã, modelada pela Igreja. Predispõe as almas à prática das virtudes e proporciona-lhes um antegozo, que as convida a desejar a vida eterna no Paraíso Celeste.

 

Revista “Catolicismo” – outubro de 2009

http://www.catolicismo.com.br

 

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