Chateau de Chimay 04d

 

Uma equipe da Globo Rural foi até a Bélgica para contar a história de um queijo delicioso, produzido por monges de uma abadia gótica que também fabrica cervejas.

O mosteiro de Scourmont fica em Chimay, no sul do país, uma cidadezinha tranquila com ruas estreitas e fachadas antigas.

E um imponente castelo: o dos Príncipes de Chimay, uma das mais nobres famílias belgas.

No Castelo dos Príncipes, no centro da cidade, mora a simpática princesa Elisabeth de Chimay.

Ela contou que alguns aposentos do castelo têm quase 800 anos de idade.

Sua capela abrigou em 1449 o famoso Santo Sudário hoje em Turim. O Teatro dos Príncipes ainda hoje acolhe concertos de música clássica.
“Naquela época, o dono do castelo era conhecido como o Grande Príncipe. Pois bem, esse príncipe, que era antepassado do meu marido, resolveu convidar alguns monges do norte da Bélgica para fundar uma abadia.

Para isso, doou algumas terras aos religiosos, que começaram a levantar o novo mosteiro. Uma vez instalados, os monges passaram a fazer os seus produtos caseiros, que há séculos garantem a prosperidade da região” – explicou a princesa.

Com o estímulo e a proteção da nobreza começou a história da abadia trapista de Notre-Dame de Scourmont, em Chimay.

“Os monges tinham alimentação fraca e trabalhavam muito. Então, era preciso reforçar as refeições com produtos mais nutritivos.
Foi aí que surgiu a ideia de fabricar queijos e cervejas. Tudo era feito para o nosso próprio consumo, para compensar o esforço físico e fortalecer os músculos”, respondeu o Père Omère (Padre Homero).

Os monges antigos levavam a sério a Regra, que incluía muito jejum e abstinência de carne. No inverno e nas épocas como as da colheita – os monges viviam de seu trabalho – a observância era exemplar. Era preciso reforçar a alimentação com alimentos que não violassem a Regra.

Os queijos e as cervejas dos monges eram tão saborosos que logo atraíram a atenção de pessoas de fora. Aos poucos, a fabricação artesanal foi dando lugar a uma atividade comercial. Mas não perdeu a identidade trapista.

Hoje em dia, os monges contam com equipamentos modernos e funcionários treinados.

A abadia fabrica três cervejas com cores e sabores diferentes. Todas são encorpadas, cremosas, levemente amargas e com teor alcoólico que varia de 7% a 9%.

A fabricação de queijos da abadia atravessou os séculos e permanece viva, como um dos símbolos da região, diz a reportagem da Globo Rural.

Na base desse trabalho estão centenas de sítios e de famílias do campo. Gente que mora no entorno de abadia e que ganha a vida produzindo leite.

No começo dos anos 80, os monges de Scourmont resolveram construir um novo laticínio da abadia. O objetivo era melhorar o controle sanitário, adotar métodos mais modernos e aumentar o volume de produção. Tudo isso respeitando a história e a tradição do queijo local.

Um dos cinco queijos fabricados no laticínio é reforçado com um ingrediente especial: a cerveja de Chimay.

Na etapa final, os queijos são levados para as caves. São salas que têm temperatura e umidade controladas. Os produtos ficam em prateleiras de quatro semanas a oito meses, segundo o tipo.

O laticínio da abadia vende cerca de mil toneladas de queijo por ano. Metade fica na Bélgica e metade é exportada, principalmente para a França, o Japão e os Estados Unidos.

Alain Hotelet, responsável comercial, explicou o sabor do queijo: “Este é o queijo clássico, que foi o primeiro a ser fabricado pelos monges. Ele é muito suave e, por isso, apreciado por um público amplo. Já o segundo tipo, o grand cru, leva mais tempo na maturação. É um queijo com aroma mais marcante e um gosto mais forte”.

Mais alto e alaranjado, o vieux chimay chega a ficar oito meses nas caves. É um queijo seco e ótimo para ser consumido em cubos, como aperitivo.

É um produto para quem gosta de queijos com personalidade. Bronzeado e mais robusto, o queijo na cerveja é o mais famoso e o mais vendido pelo laticínio. Os preços são moderados.

A reportagem acaba apresentando um modelo de integração harmônica do castelo, da abadia e da produção agrícola com a natureza. Essa foi uma das notas características da sociedade orgânica medieval.

Sem dúvida, o modelo medieval está nas antípodas das planificações esdrúxulas do ambientalismo dirigista hodierno, que manifesta entender pouco ou nada da natureza e muito do utopismo comuno-tribalista.

(gloriadaidademedia.blogspot.com.br)

 

 

 

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marista

Proferido no Colégio Diocesano de São José no Rio de Janeiro em 8 de dezembro de 1905, como paraninfo na colação do grau de bacharel em ciências e letras.

Exm. E Revm. Sr. Governador do Arcebispado.

Revd. Visitador da Congregação dos Maristas.

Revd. Reitor do Colégio Diocesano.

Exma. Senhoras.

Meus Senhores.

Triunfante a revolução e separado da Igreja o Estado; rotos assim os vínculos que através do Brasil Império nos vinham desde as mais remotas origens da nossa nacionalidade; proclamado o indiferentismo religioso no mundo oficial e erguida uma barreira entre a Nação Brasileira e o Deus de nossos pais, — nem por isto se aniquilou a crença dos brasileiros e antes lhes recresceu o dever de acudir às necessidades da religião, entre as quais avulta a da educação dos filhos.

A dissociação da crença religiosa e da instrução é uma utopia que não resiste à menor análise. O sentimento e as idéias do professor no tocante às causas finais e à constituição do universo inevitavelmente se refletem no ensino que ele tem de ministrar à juventude. O ideal de uma escola em que jamais se esflrore, sequer, um assunto de religião, é uma vã criação da falsa democracia, que pretende guerrear a Deus, proibindo que n’Ele se fale.

Já por alguém foram assinaladas as fases de oposição e hostilidade que tem atravessado o cristianismo.

Primeiros os potros e os eqüídeos, os pentes de ferro, as rodas dentadas que rasgavam as carnes, os circos de feras e as lúgubres oficinas dos carnífices: — foi a época do terror, época de que luminosos, e agitando palmas triunfantes, saíram os primeiros mártires cristãos.

Depois veio a contradita, a impugnação, o cisma sob a forma sofistica dos heresiarcas medievais ou, conglobando todos os erros já vencidos, sob a falaciosa aparência de um protesto de liberdade de interpretação. Foi a quadra dos pretensos reformadores, Lutero continuando João Huss… Mas, vencedora ainda, a Igreja, aproximou-se do seu único chefe, e, em frente das negações protestantes, afirmou a sua unidade indestrutível, assentando, mais tarde, como remate desse movimento sublime, a solene proclamação da inerrabilidade pontifícia.

A satânica explosão que os anti-cristãos saúdam como a grande emancipação do espírito humano, — a revolução francesa em 1789, — principalmente resultou da sistemática e implacável desmoralização do princípio da autoridade, propaganda de que se fizeram corifeus os Voltaires e os Rousseaus — pluralizados estes nomes, porque verdadeiramente se deveram chamar Legião, nomen mihi est legio, quia multi sumus, como lá diz o Evangelho (Marc., v. 9). O sarcasmo, pelo feitio mais pungente que imaginar se possa, foi então a grande arma da irreligião. Cessara a função do carrasco e do sofista, e, durante muitos anos, Jesus Cristo e sua doutrina, mais duramente ainda que no átrio de Pilatos, curtiram as irrisões e os apódos dos filosofantes, que preparavam o cataclismo social.

Ele veio e pela aversão da autoridade organizou este mundo novo que vemos oscilar ao sabor das revoluções, fazendo e desfazendo governos, e trucidando despiedoso os chefes de estado, quer se aderecem com a coroa, como Humberto da Itália, quer simples depositários de um poder efêmero, como Mac Kinley ou Sadi Carnot. Ela dura ainda, a tremenda procela revolucionária; mas quando, aterrado por tais horrores, em torno de nós procuramos algo estável e permanente, logo se nos impõe esta Igreja de Cristo, fundada sobre a rocha dos príncipes e que, assoberbando as ondas irritadas, bem alto eleva o seu fanal, índice e guia da salvação.

Agora, senhores, não é mais a vez da tortura, nem a do sofisma, nem a do sarcasmo — agora é a vez do silêncio. Vencido na tríplice fase da sua campanha contra Deus, o espírito da negação adotou um singular sistema de combate: nega-se a si próprio por melhor negar o Criador. As constituições que ele inspira, não perseguem nem contradizem, nem zombeteiam: mandam simplesmente calar o nome adorável do Criador e fonte de todo o bem. Chamou-se isto — separação da Igreja do Estado. Na falange adversa ao cristianismo formigam lemas que propugnam tal modus vivendi: nas cortes católicas — ai de nós! — também não falta quem praticamente o sufrague, atenta a dureza dos tempos… Mas, Deus, senhores, o eterno regedor dos povos, o indefectível dispartidor dos bens e males que opulentam ou degradam as nações na devida conta leva estas apostasias públicas, estas negações afrontosas, que tão diretas se opõem aos desígnios providenciais de formação de sua Igreja.

Não me compete, senhores, neste lugar e com a brevidade que me impõem as circunstâncias, longamente desenvolver tais idéias, trabalho fácil, aliás, e em que copiosos auxílios me forneceriam os que do assunto já se têm fartamente ocupado; mas lícito me seja encarecer, posto que sumariamente, os crescentes encargos de que aos pais de família, em geral, e em particular aos católicos, incumbe a nova ordem de coisas, na qual, da direção religiosa da juventude, se desinteressam os poderes públicos.

Todo homem que constitui família e a quem a divina Bondade concede a benção dos filhos, não se pode manter indiferente à formação do espírito, à educação da prole. Tendo dito educação, tenho dito tudo, porque não falei simplesmente de instrução. Instruir é fácil; no educar é que está a dificuldade. Em uma grande capital, com já é o nosso Rio de Janeiro, abundam professores que, com maior ou menor competência, podem ministrar aos moços variadas noções de matemática, de ciências físicas e naturais, de línguas e literaturas, de geográfica e de história… Mas o que principalmente importa, não é tanto o ensino, como o espírito com que seja ministrado.

Se do estudo da natureza física não resultar o sentimento da unidade de composição desse admirável conjunto que, com semelhança notável, os Gregos denominaram Cosmos e os Latinos Mundus; se das estrofes balbuciadas nos laboratórios e nos museus não fizerdes um hino, o hino sublime que os Galenos e os Newtons entoavam no começo e no fecho de suas obras geniais; se das minúcias, talvez demasiadas, da moderna observação, não ascenderdes até aos grandes princípios da filosofia natural, — baldados terão sido os vossos esforços, e na inteligência juvenil mal ficarão úteis vestígios de tais ensinamentos. Imperitamente guiados, os vossos discípulos terão recitado as estâncias sem perceber o poema, e admirado algumas pedras, um fuste ou um capitel, sem compreender a majestosa traça do monumento.

Em vão também os obrigareis a decorar datas e nomes históricos, se a exercícios puramente cronológicos e onomásticos se tem de reduzir o seu trabalho. A história não é, como pensam alguns pedagogos, uma transcendente matéria que se deva reservar para o ensino superior. Longe disto, uma filosofia não pedantescamente inacessível, mas profundamente moral, infiltra-se em todas as páginas da história e tão clara se mostra à meditação do sábio quanto ao bom senso da criança.

E aí, como em tudo, é preciso que filosófica e religiosamente se revele o professor.

Citai um data (já observou alguém) e eis suscitada no espírito do ouvinte a questão da era, isto é, do fato que se tomou como origem para o cômputo dos tempos.

— É nascimento do Cristo, dirá o professor… — mas que homem esse, (interrogará o aluno) que homem esse, cujo advento ficou um marco, o marco capital, na história da humanidade? Um conquistador? Um rei de muitos povos? Um descobridor de continentes? — Não; um judeu que morreu no patíbulo… Esta resposta, senhores, o professor tem de explicá-la sob pena de não ser professor. Se a der, denunciando um erro de superstição universal, terá negado ao Cristo; se devidamente explanar a verdade, terá dado uma primeira e inolvidável lição de cristianismo.

Assim, por toda a parte, e aonde quer que levemos os olhos, o problema religioso se nos depara, temeroso, inadiável. Em vão nos prescreve o positivismo uma perpétua suspensão de juízo sobre o que mais nos interessa conhecer. Chegado àquela plaga temerosa aonde vêm bater as vagas do infinito, quedava-se Littré, desanimado e triste, porque para sulcar tais ondas lhe faleciam batel e velas… Pois bem, senhores, essa desanimada quietação do filósofo não é, não pode ser a regra geral da humanidade. A travessia do infinito é a máxima questão humana — e argonautas desse mar misterioso são todos os crentes e todos os bons, não desfibrados pelo filosofismo, e que no Evangelho aprenderam a caminhar por sobre o pego, sustentados pela mão do Cristo.

Urge, pois, que às portas da escola se opte pelo sistema filosófico que tem de vivificar o ensino.

Pais católicos é dever de consciência vosso, e dever inelutável, a educação, não simplesmente a instrução de vossos filhos. Não os entregueis, querendo que como vós sejam cristãos, a essas escolas onde não é lícito falar em Deus.

Mas não somente aos pais cristãos se endereçam agora as minhas palavras, senão também aos que o não sejam, e bem assim aos governos que não são nem deixam de ser cristãos.

A um pertinaz adversário de toda religião revelada, e que tinha os filhos em conhecido colégio católico, perguntei, certa vez, porque assim procedia, de modo tão dissonante de suas notórias idéias irreligiosas; ao que prestamente me respondeu: — Para mim são indiferentes todas as religiões; mas prefiro que por ora sejam católicos os pequenos, porque isto os mantém quietos e morigerados.

Nisto, senhores, vai por igual uma lição aos pais de família e aos chefes de povos. Perpassa por todo o mundo um sopro de rebelião e desordem. Erguem-se primeiro os generais contra os imperadores, depois os subalternos contra os generais, agora já soldados e marujos contra os subalternos. Aspirações indefinidas e indefiníveis, tendências para derruir sem que se cogite no que há de estabelecer, descontentamentos que têm as suas raízes na inveja e que com poderosos galhos bracejam no ambiente insalubre do socialismo, as mais odiosas violências sob a fingida capa de propagandas populares, o cetro do mundo prometido às populaças ininteligentes e viciadas, a dinamite substituindo o discurso e o livro, o pavor e a morte erigidos em meios de convicção — eis os consectários dessa revolução cujos filhos principiam a colher os amargos frutos da triste sementeira.

Para aplacá-la, a tormenta que estua no velho mundo, e que já está repercutindo no fronteiro continente, o segredo não está na repressão pela força, mas na doutrina que consola e que salva, a doutrina do Cristo. É preciso cristianizar o mundo; é preciso que a torrente do Evangelho, momentaneamente embargada pelos ímpios, retome o seu curso refrigerante e fertilizador, levando o conforto e a vida dos areais abrasados pela soalheira da revolução. Urge cristianizar o mundo, e, senhores, o meio mais fácil de o conseguirmos é cristianizar a escola.

Convicto desta grande verdade foi que, Reverendos Irmãos Maristas, o venerável fundador da vossa Congregação, o padre Champagnat, bem claro traçava os delineamentos da educação cristã, ao lançar as bases do vosso instituto.

“Se apenas se tratara (disse ele) de ensinar aos meninos as ciências humanas, os Irmãos Maristas não seriam necessários, porque para essa tarefa bastariam os mestres da escola. Se tão somente pretendêramos prover à instrução religiosa, contentar-nos-iam as funções de meros catequistas, e uma hora por dia certo que fora suficiente para reunir as crianças e fazê-las repetir as verdades cristãs. Porém melhor ainda projetamos fazer: queremos educar a juventude, isto é, instruí-la em seus deveres, ensiná-la a praticá-los, dar-lhe o espírito e sentimentos do cristianismo, hábitos de religião, virtudes cristãs e cívicas. Para isso é preciso que nos façamos professores, que vivamos entre os nossos discípulos e que diuturna seja a sua convivência conosco”.

Eis, senhores, os conceitos que partiram no nobre e santo fundador dos Maristas; eis, com admirável concisão, exposto o fim da sua ordem, a sua razão de ser, o papel que providencialmente lhe está marcado na obra da propaganda cristã, e que, mercê de Deus, estão desempenhando em nossa pátria.

Aqui, onde escasseia o clero; onde há dioceses sem recursos para manter seminários; onde à mingua de párocos desmedram muitíssimas freguesias; e onde o zelo apostólico das rareadas fileiras do sacerdócio, apesar de toda a sua dedicação, não logra prover às necessidades espirituais do povo — aqui, muito em boa hora, apelou a sabedoria do Sr. Cardeal Arcebispo para a coadjuvação dos beneméritos Maristas.

Obra patriótica e essencialmente brasileira é, pois, a que eles estão a fazer, cooperando para a educação da juventude nacional; porque, senhores, todo o segredo da reconstrução moral deste país está no levantamento do caráter, e tal escopo só atingiremos assentando as virtudes cívicas sobre os largos e sólidos fundamentos da verdade religiosa.

Por isto compreendereis também as explosões que de súbito irrompem contra os educadores cristãos, desde que abram as oficinas onde trabalham à mentalidade juvenil. A revolução tolera o padre, o congregado que reza, que pede e disparte esmolas; mas não perdoa ao educador, ao formador de inteligências e corações. Em cada menino que freqüenta uma escola católica, a revolução vê uma força subtraída à sua influência, um colaborador da ordem social, um respeitador do princípio de autoridade, que ela trata de solapar, um adorador do Deus cuja providência e misericórdia ela impiedosa contesta.

Daí os ódios, a calunia soez e contra a qual penosa se faz a defesa, a exploração de todos os sentimentos baixos, de todas as perfídias e rancores, de todas as mesquinhezas e atrocidades — campanha de descrédito e difamação, a que complacente se prestam o jornalismo sectário e a propensão popular para os escândalos.

Contra esse gênero de perseguições, beneméritos Irmãos Maristas, permiti, não que vos lembre, pois não a tereis esquecido, mas que publicamente vos repita, em resumo, a sublime instrução que sobre a constância vos fez o egrégio fundador do vosso instituto.

“Temos de combater e lutar (disse o venerável padre Champagnat) contra nós mesmos, contra as nossas paixões e más inclinações; contra o leão rugidor que em torno de nós sempre vigilante e esfaimado vagueia; contra o mundo, contra suas vaidades, suas máximas e seus escândalos; contra os que gratuitamente se constituem nossos inimigos, pagando com o mal o bem que lhe fizemos; e, assim se pode dizer em certo sentido contra o próprio Deus, fazendo-lhe uma santa violência com fervorosas preces, e tolerando com resignada paciência todos os desgostos, indiferenças e provações com que ao mesmo Deus apraza que sejamos experimentados”.

“Ora, só uma inabalável firmeza e uma constância bem enérgica, podem prevalecer em tão violenta e porfiadas lutas. Os inconstantes, os pusilânimes, e os covardes nunca as poderão sustentar; grande é o seu perigo de perdição, e por isto a eles é que se endereça aquela assustadora máxima de Nosso Senhor: — que para o reino do Deus não presta quem mete a mão ao arado e se põe a olhar para trás”.

Ao arado a que metestes mãos, meus caros maristas, urge que de contínuo apliqueis os vossos melhores esforços, correspondendo assim às esperanças dos católicos brasileiros, e à confiança do eminentíssimo Arcebispo, cuja púrpura cardinalícia bem simboliza as ardências do paterno afeto que ao Brasil consagra o sumo representante de Cristo e cabeça visível da nossa Igreja.

Perseverai, pois, e inscrevereis o nome da vossa Congregação junto ao dos Franciscanos e Jesuítas, nossos heróicos catequistas; dos Beneditinos, a quem tanto entre nós deve a instrução popular; dos Lazaristas, que têm restaurado e elevado o ensino do clero em tantas dioceses nacionais.

Quanto a vós, briosos e ótimos bacharéis, umas palavras também vos direi, as últimas que vos endereço como mestre.

Longos anos convivemos, e assim pude formar sobre os vossos talentos uma convicção que me autoriza a vos prognosticar lisonjeiros destinos.

Essa convivência vai acabar, mas na separação uma idéia me consola, e é que convosco irá uma parte de mim mesmo, alguma coisa das minhas convicções, da minha fé, da minha própria alma, — que vos procurei transmitir.

Começa para mim o declínio da vida; já dos propínquos montes me descem as sombras vespertinas da existência; ao passo que ela em vós alvorece, rubra de promessas e cantante de utopias, que Oxalá se façam realidades… Segui, pois, alegres e felizes o vosso caminho, que no momento dos vossos triunfos alguma coisa deles também há de ser nossa, — minha e dos vossos outros educadores.

Muitas vezes, em meio da interpretação de uma página de Homero ou Demóstenes, eu me interrompi, preferindo ao desenvolvimento gramatical do texto a lição moral que aí se continha; e eu vos mostrei nas letras dos pagãos o sentimento religioso que vivaz as penetra e que foi o segredo da sua grandeza.

Ensejo também não nos faltava, em nossas palestras sobre literatura, para que em vossos ânimos juvenis eu surpreendesse um sadio critério, alegrado muito embora pelos ímpetos inseparáveis da juventude.

Dos sentimentos que vos animam, meus caros bacharéis, dá testemunho eloqüente, a divisa que tomastes para exornar o quadro do estilo: — Theòn oú léxo potè prostátan ischon; que um tradutor verteu em latim: — Deo non desinam unquam patrono uti; ou, em vernáculo: — Jamais deixarei de ter a Deus como meu protetor.

Ela foi tirada de uma tragédia, a do Rei Édipo, do grande Sófocles, genial agitador de paixões. O vosso lema, meus caros bacharéis, forma parte do soberbo cântico com que o coro, entremeando o elemento lírico no dramático, exora a Divindade em prol da pátria ameaçada e inditosa.

Desajudado da Revelação, o espírito helênico todavia lobrigava a idéia de Deus, só com o fraco lume da razão natural, e entusiástico o saudava, deprecando a divina proteção. Grande lição para aqueles a quem o Cristo se revela e que desdenhosos o postergam!

Não assim vós, meus caros discípulos e já também colegas; não assim vós que, por uma feliz coincidência, estudastes sob o patrocínio de Maria, comigo a invocáveis antes de todas as nossas lições, e ides receber o vosso primeiro grão no dia em que se enaltece o augusto privilégio cuja definição marca o fastígio do movimento católico no transacto século.

Assim protegidos não haverá dificuldades que se vos não aplanem, barreiras que se não abatam, perigos que se não conjurem, inimigos que se não debelem. Nós, os vossos mestres, aqui ficamos para contemplar-vos… Marchai resolutos à conquista do futuro!

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foto: Jorge Valenzuela A

 

Carlos Eduardo Schaffer
Austria

Quase um século após a proclamação da república na Áustria, em 21 de novembro de 1918, a esquerda ainda teme a influência da nobreza. Desde o fim de abril último diversos partidos estão se mobilizando para aumentar as penalidades impostas pela Constituição em 3 de outubro de 1919 aos membros de famílias nobres austríacas ou estrangeiras que ousarem utilizar publicamente seus títulos nobiliárquicos e outras honrarias conexas.

Em 3 de outubro de 1919 o Nationalrat (Conselho Nacional, equivalente à Câmara dos Deputados) da República da Áustria decretou, e em 28 de novembro de 2012 confirmou, o seguinte parágrafo da Constituição, ainda vigente:

§ 1. A nobreza, seus privilégios, bem como puras condecorações a ela concedidas, de cidadãos austríacos, ficam abolidos, com exceção dos títulos e honrarias de cargos oficiais, de profissão ou de qualificações artísticas ou cientificas e os privilégios com eles relacionados.
§ 2 Fica proibido utilizar esses qualificativos de nobreza, títulos e dignidades. Infrações serão punidas pelas autoridades governamentais com multas em dinheiro de 20.000 Krone (coroas) ou com seis meses de prisão.
Esta é a até hoje chamada Lei da abolição da nobreza, de certos Títulos e Dignidades, das Ordens Civis de Cavalaria e das Ordens Civis Femininas.

Apesar da rigorosa observância desta lei pelos membros da nobreza, todo austríaco de mínimo grau de instrução sabe quem é o príncipe, o duque, o conde ou o barão da sua região, especialmente em se tratando do interior do país. O prestígio de que goza a nobreza até hoje é muito grande.

É por esta razão que os políticos não ousam eliminar da Constituição os parágrafos relativos à abolição da nobreza, de seus títulos e privilégios, embora não haja qualquer movimento importante que trabalhe pela restauração da monarquia ou da nobreza.

A multa em dinheiro de 20.000 coroas, estabelecida em 1919, tornou-se hoje desprezível por causa da desvalorização das sucessivas moedas adotadas pela Áustria desde a proclamação da república até hoje: Krone (1918), Schilling (1924), Reichsmark (1938), novamente o Schilling (1945) e por fim o Euro (1999). A multa estabelecida em 1919 estaria valendo hoje 14 centavos de Euro. Apesar da insignificância da multa, a lei não é transgredida.

Agora, depois de 100 anos de vigência da lei rarissimamente transgredida, a deputada Daniela Musiol, porta-voz do Partido Verde para questões constitucionais, quer mudá-la. Ela apresentou no Nationalrat um projeto visando pressionar o governo federal a introduzir alterações na lei de abolição da nobreza estabelecendo multas mais elevadas para as pessoas que se apresentarem como nobres e portarem títulos ou honrarias vinculadas àquele estado.

Disse a Sra. Musiol: “Tal multa, tão baixa, não tem mais efeito dissuasório e não impede os infratores da lei de continuar o seu comportamento ilegal.” Em seguida ela se refere ao caráter republicano da Áustria atual.

Mas não é simples modificar a multa de 20.000 coroas, pois o valor está estipulado na Constituição e para modificá-lo é preciso uma maioria de dois terços no Nationalrat. Além disso, a Constituição não prevê a conversão de padrões monetários do Krone em euros.

Barão é obrigado a pagar multa dez centavos

Que a lei não é letra morta mostra-o uma sentença judicial publicada em 2007. A pedido de um órgão administrativo da cidade de Viena, o “cidadão Helmut RB” (o tribunal manteve incógnito o nome do infrator) foi condenando a pagar uma multa de 10 centavos de euro, por ter usado em seu cartão de visitas o título de Barão. É de se notar que a multa máxima de 14 centavos nem sequer foi aplicada.

Na sentença, o tribunal deu a entender ao órgão acusador que considerava permitido por lei a aplicação de multas de qualquer montante, mesmo as de valores não susceptíveis de desencorajar as pessoas a cometer o ato “criminoso”.

O Barão Helmut von RB apelou para o então primeiro-ministro Wolfgang Schüssel. Mas o recurso não foi aceito, por ser considerado “sem relevância”.

A atual pretensão do Partido Verde baseia-se numa “Iniciativa Popular” encabeçada pela deputada Daniela Musiol, que em três anos coletou apenas 31 assinaturas válidas. O projeto de lei por ela apresentado pede que o deputado socialista Josef Ostermayer, chefe de gabinete do primeiro-ministro Werner Faymann e encarregado de questões constitucionais, elabore um texto de lei prevendo multa adequada para o delito.

A Áustria está sendo atualmente governada por uma coalizão entre o SPÖ (Sozialdemokratische Partei Österreichs), Partido Social-democrata da Áustria, majoritário na coalizão, e o ÖVP (Österreichische Volkspartei), Partido Popular da Áustria. Em ambos os partidos o projeto de lei conta com o apoio de certo número de deputados, mas talvez não o suficiente ainda para formar com outros partidos de esquerda a necessária maioria de dois terços.

A iniciativa de Musiols contra a nobreza pode vir a ser coroada de êxito. “Estamos inteiramente abertos a sugestões”, diz o grupo parlamentar dos socialistas do SPÖ. Porque se algo está sob ameaça de punição, então a sanção para este delito deve ter também uma pena significativa.

Um argumento semelhante emite o deputado Wolfgang Gerstl, porta-voz do ÖVP para temas constitucionais. “Sou a favor de um aumento do valor da pena, caso contrário, a lei não faz sentido.” Não há necessidade de uma modificação profunda da lei. É preciso apenas atualizar o valor da multa. “Uma lei sem pena relevante é um tigre de papel sem dentes”, diz Gerstl. Mas acrescenta: “Graças a Deus, a lei hoje não tem relevância. Porque certamente não estamos invadidos por nobres que querem derrubar a democracia.”

No entanto, o chefe do grupo parlamentar dos Neos (Das neue Österreich und Liberales Forum – O Novo Fórum Liberal da Áustria), Nikolaus Scherak, quer que o assunto seja mais debatido: “O que importa é saber se a razão que moveu o legislador ao elaborar a lei ainda existe”, diz ele. “Mas se você chegar à conclusão de que a lei ainda é necessária, então deve-se, na verdade, adaptar a punição.” O escritório do ministro Ostermayer faz saber que o SPÖ quer também esperar as discussões em nível parlamentar para se pronunciar definitivamente.

É bem verdade que não existe na Áustria qualquer movimento proveniente da nobreza para derrubar a democracia. Mas, após quase 100 anos sem existência jurídica, essa classe social, com seus bailes, casamentos e batizados noticiados por toda a imprensa tanto da Áustria quanto do resto do mundo e seus membros ocupando postos importantes na administração de empresas privadas, traz à lembrança de todos os quase 500 anos ininterruptos da gloriosa história da família dos Habsburgos à frente do Sacro Império Romano Alemão e mais de um século à cabeça do Império Austro-Húngaro.

AustriaO Arquiduque Ulrich von Österreich — que pode se chamar simplesmente de Ulrich Habsburg — afirma que a noção de Nobreza não poderá ser apagada da memória do povo austríaco enquanto se continuar ensinando nas escolas que o príncipe Montecuccoli foi chefe vitorioso na batalha contra os turcos, que o Príncipe Eugenio de Saboia [monumento ao príncipe em Viena] libertou a Hungria e várias outras regiões do Império do jugo muçulmano, que o Imperador Francisco José, com apenas 50 mil funcionários, administrou a vida de mais de 350 milhões de súditos divididos em inúmeras etnias e regiões; ao passo que a Áustria de hoje, com apenas um pouco mais de oito milhões de habitantes, emprega mais de 200 mil funcionários públicos!

Seria preciso apagar dos livros e dos programas escolares quase 800 anos de história da Áustria a fim de acabar com a noção de nobreza no povo austríaco.

Alem disso, seria também necessário proibir o fluxo anual de milhões de turistas, que em sua maioria procuram os monumentos históricos — castelos, palácios, igrejas, museus, centros históricos das cidades etc. — que não falam senão do glorioso passado monárquico da Áustria.

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Machado de Assis comenta o casamento da Princesa Da. Isabel

March 20, 2015

O Rio de Janeiro está em festas – festas realizadas anteontem e festas adiadas para 24 e 25. O casamento da herdeira da coroa é o assunto do momento. Um céu puro e um sol esplêndido presidiram no dia 15 a este acontecimento nacional. A natureza dava a mão aos homens; o céu comungava com […]

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Venerável Maria Clotilde de Bourbon, Rainha da Sardenha

February 22, 2015

  Foto: G. Freihalter Uma admirável e infelizmente pouco conhecida irmã de Luís XVI –– o rei-mártir, vitima da Revolução Francesa ––, falecida a 7 de março de 1802, e em vias de ser beatificada, soube aliar os esplendores de sua ascendência principesca e a condição de rainha com a heroicidade das virtudes Julio Loredo […]

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Godofredo de Bouillon

February 10, 2015

Os infiéis, tomados de espanto (devido às vitórias dos francos) nada melhor acharam para fazer do que mandar uma embaixada de Ascalom, de Cesareia e de Tolemaida, a Godofredo, para saudá-lo da parte daquelas cidades. A mensagem estava assim redigida: “O Emir de Ascalom, o Emir de Cesareia e o Emir de Tolemaida ao Duque […]

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Arundel: castelo dos duques que recusaram o protestantismo inglês

January 13, 2015

No dia de Natal de 1067, há perto de um milênio, o nobre Roger de Montgomery erigiu um castelo em Arundel, West Sussex, Inglaterra. Roger foi feito conde de Arundel pelo novo rei inglês Guilherme o Conquistador. Propriedade familiar a partir do século XI, o castelo é a sede principal da família dos Duques de […]

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Festa da coroação do Imperador Romano-Alemão

December 28, 2014

Maximiliano II começou em 1564 a série de Imperadores eleitos de Frankfurt. A partir desse momento, a sala principal do magnífico edifício central de Frankfurt, o Rómer, serviu para a proclamação dos Imperadores, e denominou-se esta sala Kaisersaal, Sala do Imperador. E’ um recinto oblongo, vasto, discretamente iluminado em sua extremidade oriental por cinco estreitas […]

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Viagem do Príncipe Imperial Conde d’Eu aos Estados do Sul do Brasil

November 30, 2014

  Ata da Sessão Especial realizada pela Câmara Municipal de Rio Negro – Paraná “Sessão especial do dia dez de dezembro de 1884. Presidência do Senhor Miguel José Grein. Aos dez dias do mês de dezembro do ano de mil oitocentos e oitenta e quatro, nesta Villa do Rio Negro, no Paço da Câmara Municipal, […]

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Princesa Isabel encontra o Bispo Dom Laranjeira

November 10, 2014

Carta da Princesa Isabel ao Imperador seu pai, por ocasião da viagem ao Rio Grande do Sul, em companhia do Conde d’Eu e dos Príncípes Dom Pedro e Dom Luís.   6 de janeiro de 1885   Às 7 fomos ao Mercado. Muito bonito e grande, cheio de frutas e legumes. Muitas negras bahianas se […]

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A carruagem

October 19, 2014

  Em relação aos veículos modernos: progresso ou retrocesso? Carruagem ou trono ambulante? Evidentemente, a foto é de uma carruagem, mas lembra um trono. Tudo nela foi estudado em função do passageiro. Em primeiro lugar, considere-se a parte prática: as rodas e as molas para que, nas estradas daquele tempo, a carruagem se movimentasse sem […]

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Impulso da nobreza à conversão, rende copiosos frutos na Coréia do Sul

October 1, 2014

Na Coreia do Sul, entre 1960 e 2010, a população passou de 23 para 48 milhões. Os católicos cresceram perto de 3% ao ano, perfazem 11% (5,5 milhões) da população, e podem chegar a 20% em 2020, noticiou o site www.chiesa. Nesse período, os sacerdotes coreanos aumentaram de 250 para 5.000. Cada paróquia realiza anualmente […]

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Compatibilidade entre o ideal militar e o ideal cristão

August 24, 2014

 Papa Bento XIV   Carta do Papa Bento XIV de louvor à Ordem de Malta, por sua heroica defesa da Cristandade ameaçada pelas forças muçulmanas “A Ordem Hierosolimitana tem um lugar de escol entre as Ordens militares que, com satisfação Nossa, sustentam a Religião Católica e a defendem corajosamente contra seus inimigos. Para glória de […]

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