Soyecourt         

 

           “A 24 de julho de 1784 recebia o véu no Carmelo Mademoiselle Camille de Soyecourt [1757-1849], filha da mais alta nobreza da França. Jovem, entretanto, tão franzina e sofrendo, segundo os médicos, de uma moléstia incurável do coração, que todos julgavam não poder permanecer mais que seis meses no convento. Contudo, ela não somente sobreviveu muitos anos, como sem dúvida sua personalidade teve destaque notável, embora desconhecido, na preservação do Carmelo de Paris durante a Revolução.
          Em 1792, seu convento foi invadido e as religiosas dispersas. Irmã Camille, liderando um grupo delas, instalou-se numa casa firmemente decidida a manter vivo o espírito carmelitano. Denunciada, a pequena comunidade foi presa. Quando obteve a liberdade. Mademoiselle de Soyecourt refugiou-se em casa de sua família, mas por pouco tempo, pois seus pais e duas irmãs foram encarcerados. Após numerosas peripécias, empregou-se numa fazenda. Durante todo esse tempo não deixou de cumprir o mais rigorosamente que pôde os preceitos do Carmelo: jejuava, recitava o Ofício nas horas devidas e confessava-se, com grande dificuldade, semanalmente, com um padre refratário [Nota: que recusou aceitar a Constituição civil do clero, imposta pelos revolucionários]. Um dia teve a notícia da condenação de seus familiares, todos guilhotinados. Soube então que sua irmã deixara um filho, pequeno ainda.
          Apesar de sua dolorosa situação, Irmã Camille, até a morte foi tutora do sobrinho. Expulsa da fazenda onde trabalhava, pois a morte de seus pais traiu sua pessoa, a religiosa mendigou algum tempo. Tendo encontrado uma irmã de seu convento, decidiu restabelecer sua Ordem. Com o dinheiro das esmolas e com o auxílio de padres refratários, obteve a capela de um seminário, recomeçando os ofícios religiosos. Terminado o Terror; Mademoiselle de Soyecourt, então uma figura alta, pálida, grave e suave, decidiu re-obter para seu sobrinho e para seu convento, a fortuna de seus pais. Causava espanto aos notários e homens da lei, a presença dessa mulher paupérrima, falando de milhões, de venda de terras e de compra de imóveis. Mas conseguindo integralmente o que desejava, a religiosa chamou para junto de si as suas irmãs, dispersas.
          E no convento carmelita de Paris reinstalou sua comunidade. Aí ela viveu mais de 45 anos, não sem problemas. Por exemplo, em janeiro de 1811 Fouché [1759-1820, em sua juventude ingressou no seminário onde se ordenou religioso da ordem dos Oratorianos; após dez anos abandona seu cargo de professor no seminário para entrar em política; exerceu seu poder durante a Revolução Francesa e o império napoleônico; foi o fundador das modernas polícias políticas e de suas espionagens] foi informado de que uma senhora carmelita, superiora do Carmelo ocupava-se ativamente em copiar e distribuir a Bula de excomunhão… do próprio imperador. Foi por isso presa num lugar bem distante do convento, o que não a impedia de atender sua comunidade, fazendo-lhe visitas inteiramente disfarçada, e passando, desse modo, diante dos guardas, com toda segurança. A Restauração tirou-a desse exílio. Quando suas dificuldades morais pareceram diminuir, começaram, as físicas. Seu corpo tornara-se quase diáfano, por causa dos jejuns e penitências. Aos 85 anos, ainda dormia sobre uma tábua, apesar da gota dolorosíssima e de dores de estômago que não lhe permitiam repousar. Ela manteve, entretanto, como sempre em sua vida, inalterável bom humor e sua proverbial intrepidez. Repleta de dores, veio a falecer, em 1849, aos 92 anos de idade”.
(G. Lenotre, “Vieilles maisons, vieux papiers”, 2ème série, Perrin, Le roman d’une carmélite, pags. 343-359:)

 

Comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP, em 17.2.1970:

Os senhores tem ouvido falar a respeito do “rio chinês” [expressão utilizada para significar um itinerário cheio de voltas, de dobras e de surpresas, como seria o de algum caprichoso rio chinês]. Eu queria que os senhores se colocassem nessa biografia, não na posição de um mero leitor, mas de quem a viveu. Porque são coisas muito diferentes a gente ler agora essa vida, acabar e dizer: “que grande mulher foi a mademoiselle Camille de Soyecourt!” Outra coisa é a gente se imaginar dentro de sua pele.
A gente vê, então, tudo quanto foi acontecendo para ela, como sendo uma coisa com uma vocação definida, um objetivo muito definido, ela adentrou esse objetivo com todo o empenho de sua alma. Quando os senhores vão ver o curso da vida, dão se conta de que foi tipicamente do “rio chinês”. Quer dizer, ela ser carmelita, entra no Carmelo, forma-se. Ela poderia esperar, por exemplo, uma vida como a de Santa Teresa, a Grande, ou então uma vida de Santa Teresinha. Ou seja, uma vida inteira transcorrida no Carmelo, com essas ou aquelas dificuldades, mas dentro da vida carmelitana. Com certeza ela tinha tido mil apetências, sugeridas pelas graça, para isso.
E o que acontece? Em vez de ela ter essa vida, vem a Revolução Francesa e vai para o cárcere. Vamos dizer quer tenha pensado em martírio: “Vou dar a minha vida, vou ficar uma santa. Está bem, aceito com todo gosto!” Conformidade. Foi posta em liberdade. Posta em liberdade esperava viver, ao menos sozinha, para Deus, mas se transforma em chefe de família, apesar de solteira. E fica tutora de um “bambino” [seu sobrinho] que tem que criar, formar etc., etc. Era uma moça rica e perde a fortuna. Os pais vão para a guilhotina, e ela se torna criada numa fazenda, ou seja trabalhadora manual.
Então, ela tinha dado sua vida, que começa nascendo nobre, acaba em religiosa e depois desfecha em ser trabalhadora manual em fazenda. Nada exclui – a biografia aqui não entra nesses pormenores – que tenha tido que limpar estábulos, limpar vacas e fazer outras coisas ultra prosaicas desse gênero, quando não era fazer serviço prosaico para os donos da fazenda, talvez coisa pior do que tratar das vacas. Ela toca para frente. É posta fora desse emprego e se torna mendiga. Mendiga com o menino.
Começa a mendigar de um lugar para outro. De repente a Revolução Francesa passa e ela se transforma em mulher de negócios. E começa a visitar cartórios para recompor a fortuna a que tinha direito…
Os senhores estão vendo como tudo isso é completamente contrário ao que ela quer. Mas ela continua sempre com o mesmo objetivo: ser carmelita! A tal ponto que reconstitui o Carmelo. Reconstituído o Carmelo, nele entra para lá recomeçar a vida normal de carmelita… Prisão! Prisão até o tempo dos Bourbons. Prisão longe, uma espécie de exílio, uma coisa assim. Novamente sua vida de carmelita se interrompe. Afinal volta para o Carmelo, porque voltam os Bourbons, que restabelecem a ordem de coisas normal. Volta para o Carmelo.
Dir-se-ia então que ia levar uma vida tranqüila como carmelita que, afinal, está no seu convento e começa a rezar. Mas inicia outro gênero de provação. Dir-se-ia: “Bem, coitada, é a fase final. Agora então vai morrer daqui a pouco e vai repousar em Deus”… Não senhor! Nada de repousar em Deus. Lutar na terra até o último alento! Então fica vivendo até os noventa e tantos anos, sempre praticando penitência, modelo de religiosa, agüentando as doenças nas costas, e afinal de contas morre numa idade que, com certeza, nunca podia imaginar que ela atingisse depois de tantas doenças e outras provações.
Agora nós vamos perguntar, aos olhos do espírito moderno, como considerar isso: foi uma vida frustrada ou foi uma vida realizada? É a pergunta que a gente deve fazer. Para os homens de espírito moderno foi uma vida frustrada. Porque a vida realizada seria se ela tivesse entrado no convento e tivesse ficado religiosa direitinho até o fim. Como teve coisas que atrapalharam a vida dela e a obrigaram a ser uma porção de coisas que não queria, ela cem vezes durante a vida deveria ter se sentido frustrada, deveria ter abandonado a vocação. Afinal de contas quando veio, dentro da vocação, a doença, ela poderia ter dito: “Não tem mais solução! Deus me entregou! Porque agora que eu poderia levar a vida normal de uma carmelita, começo a levar uma vida de doente!…”
Nós, entretanto, dizemos que foi uma grande vida realizada. E é impossível os senhores terem ouvido essa ficha sem sentirem a maior admiração por ela.
Mas então perguntamos: o que é a realização? E é aqui que entra o choque do homem do mundo contra o espírito católico. Por que no que ela foi martirizada segundo o espírito da Igreja? No que, segundo o espírito do mundo, ela não foi realizada? Segundo o espírito do mundo, ela não foi realizada porque não levou a vida que quis, não realizou a obra que empreendeu. Em última análise, a noção de “realizado” segundo o mundo é ou a de um indivíduo que levou a vida que quis, ou de um indivíduo que ganhou muito dinheiro. Estão aqui os dois conceitos de homem realizado.

Ora, ela não ganhou muito dinheiro e não levou a vida que quis. Logo ela não foi realizada. Mas é impossível nós ouvirmos a leitura dessa ficha sem vermos que ela foi realizada. Então o que é, no sentido verdadeiro da palavra, a realização? A realização não é o que o mundo pensa, mas realização é algo diverso. A realização é – antes de tudo – realização de si mesma. Antes de tudo não digo no sentido supremo, mas no sentido mais imediato. É a realização de si próprio.
Em outros termos, a gente vê que ela realizou uma grande personalidade, foi uma pessoa de grande virtude e que no esplendor de sua virtude manifestou numerosas qualidades até naturais de que a Providência a tinha dotado. Quer dizer, ela tirou de si tudo quanto potencialmente tinha. Levou até à perfeição mil coisas que nela estavam potencialmente, como uma semente que deu inteiramente uma esplendida árvore. Então, o realizar-se – nesse sentido mais imediato da palavra – é o atingir a sua própria perfeição. Se fez o que quis ou não fez, não tem importância. A importância é ter chegado à sua própria perfeição. Isso sim! Essa é a primeira noção.
Segunda noção: vemos que ela realizou essa perfeição não através de uma série de fracassos que tenham ficado em fracasso. Mas vemos que sua vida tem uma continuidade. Essa continuidade, esse plano não era assim que ela queria, mas eram planos que Deus tinha a seu respeito. Ela fez a vontade de Deus!
Em que sentido se deve tomar essa afirmação? No seguinte sentido: quando acabamos de ler essa vida, vemos a grande obra dela para a glória de Deus entre os homens. E que não foi tanto de acabar fundando um convento – que é uma obra excelente – mas uma coisa muito maior do que fundar um convento: é ter deixado um grande exemplo! Ser um grande exemplo de perseverança, um grande exemplo de resolução, um grande exemplo de força de alma, de confiança na Providência Divina, de obediência aos desígnios de Deus nas circunstâncias mais adversas da vida. De maneira que enquanto sua memória for conhecida pelos homens, haverá homens fracos, em condições difíceis, que terão um alento maior parta enfrentar as dificuldades da vida, por causa de seu exemplo. E ela será a força dos fracos, será a luz daqueles que estiverem na incerteza, na penumbra, enquanto a memória dela se guardar entre os homens. Por que? Porque foi o grande exemplo que ela deixou. E deixar um grande exemplo é uma coisa muito maior do que fazer uma grande obra.
Um grande convento é uma coisa esplendida. Mas se um grande convento não fosse um grande exemplo, não adiantava de nada. Quer dizer, abaixo do culto a Deus, a melhor coisa que podemos fazer é edificar por nosso exemplo. As nossas palavras e as nossas ações vêem abaixo do exemplo. As palavras movem, o exemplo arrasta. Ela deixou um exemplo de força de alma! Tanto mais que a gente percebe em sua biografia que através de todas as incertezas de sua vida ela foi sempre forte. Nunca ela se sentiu quebrada, sempre caminhou para a frente cumprindo o dever de acordo com o que queria a Providência, sem perder a unidade do que estava fazendo. Mas entendendo que realizando o dever do momento, ela fazia a vontade de Deus.
No Céu, ela está vendo essa unidade que Deus quis e talvez não tivesse calculado que o exemplo dela irradiasse tanto, que pudesse ser tão conhecido. É uma pessoa extraordinária, que talvez ainda venha a ser canonizada. Isso é a vida de uma pessoa que cegamente vai seguindo diante das dificuldades, e fazendo, e agindo e não se incomodando. No fim vem a glória, a glória de ter dado um bom exemplo obedecendo a Deus. Parece-me que essa é a grande lição que a ficha do “Santo do Dia” de hoje nos ensina.

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Kazimierz_Wielki_by_Bacciarelli

Esse jovem Príncipe polonês tornou-se um exemplo de cavaleiro cristão,
modelo de castidade e baluarte da Igreja contra o cisma russo e a heresia protestante

Detentor de merecidos títulos de grandeza terrena como Príncipe da Polônia e Rei natural da Hungria, São Casimiro foi, entretanto, maior ainda por sua inteira submissão à vontade de Deus. Seguindo as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo, procurou moldar sua alma segundo a fisionomia moral do Divino Redentor, tornando-se o primeiro santo jovem leigo da era dita moderna.

Foi ele o segundo dos 13 filhos que teve Casimiro IV (1427-1492), Duque da Lituânia e Rei da Polônia, com a Princesa austríaca Elisabeth de Habsburgo, filha de Alberto II, Imperador do Sacro Império Romano Alemão. Casimiro nasceu em 3 de outubro de 1458, no castelo de Wawel, em Cracóvia.

Para a educação de seus filhos, Casimiro IV nomeou o polonês João Dlugosz (1415-1480), Cônego de Cracóvia, que se distingüia por grande saber e provada virtude.

Era costume na época colocar os príncipes sob a influência de professores filiados a correntes renascentistas. Por isso o jovem Príncipe Casimiro, que teve como mestre o italiano Filippo Bonaccorsi, cognominado Calímaco, o qual ensinou-lhe latim e retórica. Esse mestre passou a chamar o discípulo jovem divinizado, por causa de suas virtudes.

Visando sujeitar seu corpo às leis do espírito, Casimiro utilizava-se do cilício e da disciplina, jejuava e dormia em dura terra, em meio ao ambiente de frivolidade que as cortes renascentistas criavam. Com isso sua alma desprendia-se dos prazeres fáceis da vida mundana, evolando para celestes grandezas da perfeição cristã.

Contemplação dos mistérios da Paixão: fonte de fortaleza
A paz interior de sua alma manifestava-se na louçania e serenidade do seu semblante, afeito à contemplação. Mesmo com as ocupações inerentes ao seu alto cargo, não se esquecia que, além dos deveres de estado, mais ainda devia zelar pela honra do Divino Salvador, que padeceu cruéis sofrimentos por amor aos homens.

Sua alegria consistia em estar junto ao Sacrário para adorar Aquele que é o Soberano absoluto de todos os corações, tanto dos reis quanto dos súditos. Por isso, entrando nas igrejas, ajoelhava-se diante de Jesus Sacramentado, esquecendo-se de tudo quanto era terreno. Passava aí muitas horas da noite na contemplação dos mistérios da Paixão. Muitas vezes, não continha as lágrimas ao contemplar o Divino Crucificado, considerando as ofensas por Ele suportadas, ao mesmo tempo em que ardia em desejos de repará-las. Seu rosto ficava então inundado por uma luz sobrenatural.

Tinha muita caridade para com os necessitados de qualquer espécie: amparava os fracos, encorajava os oprimidos e levava o bálsamo de uma palavra cheia de afeto aos prisioneiros, enfermos e angustiados.

Se assim procedia em relação aos desvalidos, seu trato na Corte era igualmente exímio. Tinha tal aptidão para os estudos, que, aos 13 anos, proferiu primoroso discurso em latim, saudando o Legado Pontifício. Dois anos depois, com mesmo talento, homenageou o embaixador veneziano.

Baluarte contra o cisma russo e a heresia protestante
A pedido de seus partidários húngaros, esse casto e valente Príncipe, com apenas 13 anos de idade, em 2 de outubro de 1471 precisou armar-se como um verdadeiro guerreiro para conquistar a coroa de Santo Estêvão, à frente de um exército de 12 mil homens. Não lhe faltavam, por parte de sua mãe, os títulos dinásticos para depor o então Rei da Hungria.

Do trono de São Pedro, Sixto IV, vendo que o perigo turco ameaçava a Cristandade européia, interveio no sentido de serenar os ânimos, evitando assim a dispersão das forças cristãs em lutas intestinas.

Mesmo tendo se submetido ao apelo do Papa, São Casimiro conservou o título de “senhor natural por direito de nascimento do reino de Hungria”.

Em suas terras, lutou valentemente para que a verdadeira Igreja fosse favorecida. Atacou duramente as heresias e os movimentos subversivos da época, tendo mesmo estabelecido um pacto de defesa antiturca com os Estados italianos.

Após a morte de Sixto IV, São Casimiro tornou-se inquebrantável escudo da verdadeira ortodoxia contra as heresias provindas da pseudo-reforma protestante e dos erros da igreja cismática russa. Acompanhou sempre seu pai na administração do reino bem como nas viagens que este empreendeu a reinos vizinhos. Por saber o latim, seu pai o utilizou em Danzig como intérprete no encontro que manteve com o Rei sueco Cristiano.

Aquela foi uma época em que se verificavam muitos confrontos do Rei polonês com os senhores feudais revoltados. Além disso, ferrenhos combates foram travados com os Cavaleiros da Ordem Teutônica, já em franca decadência, que foram obrigados a assinar um tratado de paz com o Reino polonês, mediante o qual cederam a este a Prússia Ocidental.

Fiel ao voto de castidade, não temeu a morte
Em 1483 ocupou-se da administração dos Ducados da Lituânia, preocupando-se sempre com o bem dos súditos.

Nessa ocasião que seu pai manifestou-lhe o desejo de que ele se casasse com a filha do Imperador alemão Frederico III. Tendo São Casimiro contraído tuberculose, os médicos julgavam que o casamento o curaria, pois acreditavam que a vida austera do jovem Príncipe era a causa da doença. Singular constatação! São Casimiro, porém, preferiu permanecer fiel a seu voto de castidade perfeita.

A tuberculose na época era uma doença incurável. Assim a moléstia agravou-se rapidamente e sua morte não tardou. Com os olhos postos numa imagem do Crucificado e invocando Maria Santíssima, ele a enfrentou com a serenidade de alma própria aos santos.

Recebeu com devoção os santos sacramentos, e em 4 de março de 1484 entregou sua alma ao Criador. Suas últimas palavras, depois de oscular com amor o crucifixo, foram: “Em vossas mãos, ó Jesus, entrego o meu espírito”. Sua alma, segundo testemunhas, subiu ao Céu em meio a grande luminosidade.

Corpo incorrupto e perfume: imagens de castidade perfeita
A morte o colheu aos 25 anos, em Gardinas, mas seu corpo foi enterrado na catedral de Vilnius, capital da Lituânia, na capela dedicada a Nossa Senhora.

O primeiro biógrafo do santo foi Zacarias Ferreri, enviado à Polônia a mando do Papa Leão X, para coletar dados sobre a vida de Casimiro, cuja santidade já era conhecida e confirmada por muitos milagres. Entre estes, destacam-se a cura de doentes incuráveis e a ressurreição de uma menina, natural de Vilnius.

O mesmo Papa Leão X canonizou São Casimiro em 1521.

Em 6 de agosto de 1604 — para gáudio e edificação dos fiéis católicos e glória de São Casimiro — sua sepultura foi aberta na presença de várias testemunhas. Devido a um milagre, seu corpo encontrava-se inteiramente incorrupto. As roupas também estavam intactas, apesar da umidade existente. Como admirável símbolo de sua castidade, o corpo exalava um agradável perfume. Encontrou-se também em seu peito o hino Omni die dic Mariae laudes animae [Minha alma, cada dia, dirija um canto a Maria], um dos mais belos cânticos da Idade Média, dedicado à Virgem Santíssima (Acta Sanctorum, Martii I, Parisiis, 1865).

Seu nome é glorificado no calendário litúrgico em 4 de março, quando, segundo velho costume, milhares de fiéis vão venerar suas preciosas relíquias em Vilnius.

Em 1943 o Papa Pio XII proclamou São Casimiro Patrono principal da juventude lituana em qualquer parte do mundo. É também Padroeiro da Polônia.

Admirável na Terra, mais ainda no Céu
São famosas, ainda, as aparições de São Casimiro.

A primeira deu-se no ano de 1518 quando um grande exército moscovita estava prestes a dominar a cidade de Polotsk, baluarte na defesa da Lituânia, situada na confluência dos rios Dauguva e Palata. O fogoso exército lituano, composto de dois mil homens partiu intrépido para socorrê-la.

Entretanto o transbordamento do rio Dauguva impedia que eles alcançassem o inimigo, postado à outra margem. O que fazer? Enquanto estavam nesse impasse, os lituanos viram surgir um jovem cavaleiro montado em corcel branco, convidando-os a segui-lo rumo à outra margem.

Impelidos pelo entusiasmo, os lituanos seguiram o valente cavaleiro, e atravessando o rio num lugar propício atacaram os moscovitas, alcançando brilhante vitória. O cavaleiro da veste alva desapareceu como por encanto. Mas todos reconheceram nele São Casimiro, seu protetor.

Outra aparição ocorreu em 1654 ao comandante russo Sermetjev, que ocupara a cidade de Polotsk e transformara a igreja em estábulo. O Santo apareceu-lhe, increpando-o de tentar a Deus, que o puniria de modo exemplar.

As aparições de São Casimiro tornaram-se um símbolo da luta contra Moscou e a propagação da igreja cismática russa. Por esse motivo a Rússia czarista votava um ódio implacável ao Santo, cerceando-lhe o culto de todos os modos.

Uma frase em latim, alusiva a São Casimiro bem sintetiza a extraordinária vida do jovem Príncipe polonês neste mundo e sua gloriosa atuação após ter alcançado a bem-aventurança eterna: “Casimiro, admirável na Terra, mais admirável ainda no Céu”.

 

(Revista CATOLICISMO – março/1998 – www.catolicismo.com.br)

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Chateau de Chimay 04d

 

Uma equipe da Globo Rural foi até a Bélgica para contar a história de um queijo delicioso, produzido por monges de uma abadia gótica que também fabrica cervejas.

O mosteiro de Scourmont fica em Chimay, no sul do país, uma cidadezinha tranquila com ruas estreitas e fachadas antigas.

E um imponente castelo: o dos Príncipes de Chimay, uma das mais nobres famílias belgas.

No Castelo dos Príncipes, no centro da cidade, mora a simpática princesa Elisabeth de Chimay.

Ela contou que alguns aposentos do castelo têm quase 800 anos de idade.

Sua capela abrigou em 1449 o famoso Santo Sudário hoje em Turim. O Teatro dos Príncipes ainda hoje acolhe concertos de música clássica.
“Naquela época, o dono do castelo era conhecido como o Grande Príncipe. Pois bem, esse príncipe, que era antepassado do meu marido, resolveu convidar alguns monges do norte da Bélgica para fundar uma abadia.

Para isso, doou algumas terras aos religiosos, que começaram a levantar o novo mosteiro. Uma vez instalados, os monges passaram a fazer os seus produtos caseiros, que há séculos garantem a prosperidade da região” – explicou a princesa.

Com o estímulo e a proteção da nobreza começou a história da abadia trapista de Notre-Dame de Scourmont, em Chimay.

“Os monges tinham alimentação fraca e trabalhavam muito. Então, era preciso reforçar as refeições com produtos mais nutritivos.
Foi aí que surgiu a ideia de fabricar queijos e cervejas. Tudo era feito para o nosso próprio consumo, para compensar o esforço físico e fortalecer os músculos”, respondeu o Père Omère (Padre Homero).

Os monges antigos levavam a sério a Regra, que incluía muito jejum e abstinência de carne. No inverno e nas épocas como as da colheita – os monges viviam de seu trabalho – a observância era exemplar. Era preciso reforçar a alimentação com alimentos que não violassem a Regra.

Os queijos e as cervejas dos monges eram tão saborosos que logo atraíram a atenção de pessoas de fora. Aos poucos, a fabricação artesanal foi dando lugar a uma atividade comercial. Mas não perdeu a identidade trapista.

Hoje em dia, os monges contam com equipamentos modernos e funcionários treinados.

A abadia fabrica três cervejas com cores e sabores diferentes. Todas são encorpadas, cremosas, levemente amargas e com teor alcoólico que varia de 7% a 9%.

A fabricação de queijos da abadia atravessou os séculos e permanece viva, como um dos símbolos da região, diz a reportagem da Globo Rural.

Na base desse trabalho estão centenas de sítios e de famílias do campo. Gente que mora no entorno de abadia e que ganha a vida produzindo leite.

No começo dos anos 80, os monges de Scourmont resolveram construir um novo laticínio da abadia. O objetivo era melhorar o controle sanitário, adotar métodos mais modernos e aumentar o volume de produção. Tudo isso respeitando a história e a tradição do queijo local.

Um dos cinco queijos fabricados no laticínio é reforçado com um ingrediente especial: a cerveja de Chimay.

Na etapa final, os queijos são levados para as caves. São salas que têm temperatura e umidade controladas. Os produtos ficam em prateleiras de quatro semanas a oito meses, segundo o tipo.

O laticínio da abadia vende cerca de mil toneladas de queijo por ano. Metade fica na Bélgica e metade é exportada, principalmente para a França, o Japão e os Estados Unidos.

Alain Hotelet, responsável comercial, explicou o sabor do queijo: “Este é o queijo clássico, que foi o primeiro a ser fabricado pelos monges. Ele é muito suave e, por isso, apreciado por um público amplo. Já o segundo tipo, o grand cru, leva mais tempo na maturação. É um queijo com aroma mais marcante e um gosto mais forte”.

Mais alto e alaranjado, o vieux chimay chega a ficar oito meses nas caves. É um queijo seco e ótimo para ser consumido em cubos, como aperitivo.

É um produto para quem gosta de queijos com personalidade. Bronzeado e mais robusto, o queijo na cerveja é o mais famoso e o mais vendido pelo laticínio. Os preços são moderados.

A reportagem acaba apresentando um modelo de integração harmônica do castelo, da abadia e da produção agrícola com a natureza. Essa foi uma das notas características da sociedade orgânica medieval.

Sem dúvida, o modelo medieval está nas antípodas das planificações esdrúxulas do ambientalismo dirigista hodierno, que manifesta entender pouco ou nada da natureza e muito do utopismo comuno-tribalista.

(gloriadaidademedia.blogspot.com.br)

 

 

 

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