DIS_SD_921125_Alfonso_XIII Rei Afonso XIII

 

O que será lido é o contrário da idéia comum que a Revolução procura espalhar entre as pessoas de pouca cultura a respeito do pretenso orgulho dos Reis e da nobreza em geral, bem como o desdém que teriam tido em relação aos pobres.

Pelo contrário, na Corte de Espanha se realizava uma cerimônia litúrgica de lavapés de mendigos. O próprio Rei lavava os pés dos mendigos.

• A cerimônia do Lavapés, iniciada por São Fernando III

Sublimidade, Humildade e Serviço refletidos em uma cerimônia multissecular: os Reis, secundados por Grandes de Espanha, lavam os pés de mendigos na Quinta-feira Santa, e lhes servem à mesa

DIS_SD_921125_Maria_del_Pilar_de_Baviera Princesa Pilar de Baviera

 

Trechos extraídos do livro “Alfonso XIII”, escrito por S.A.R. a Princesa Pilar de Baviera e o Comandante Desmond Chapman-Huston (Editorial Juventud S.A., Barcelona, 1959, pp. 243 a 249)

De todas as cerimônias da Semana Santa na Corte espanhola, a mais emocionante e de sentido mais profundo é o Lavapés de Quinta-feira Santa. Pratica-se hoje como se vinha fazendo desde 1242, no Reinado de Fernando, o Santo.

São Fernando, o conquistador de Sevilha, que deixou tudo pronto para que a conquista de Granada fosse como o pulo de um gato sobre um pássaro, foi quem iniciou este tipo de cerimônia.

Seu verdadeiro início, obviamente, foi na noite daquele dia em que, cansados por uma longa viagem, os doze amigos estavam sentados tristemente no Cenáculo, e Um deles que, sendo seu Rei, era também seu servidor, cingindo-se de uma toalha, tomou água e lavou os pés cansados e sujos de poeira de todos eles. E o efeito de refrigério desta simples ação chega até nós, renovado através dos séculos.

Uma vez cada dez anos, milhares de peregrinos acodem desde todas as partes do mundo para vê-la representada pelos camponeses de Oberammergau nas montanhas da Baviera; mas aqui, em Madrid, pode-se ver todos os anos, e o belo gesto é desempenhado pelo Rei e a Rainha genuflexos.

No Reinado de Isabel II, esta lavava os pés das mulheres, e seu esposo, o Rei Francisco, os dos homens. No de Afonso XII, foi celebrada a cerimônia uma vez por ele, com a jovem Rainha Mercedes ao seu lado. Maria Cristina, como Rainha-esposa, nela tomou parte seis vezes. Durante a Regência, cumpriu-a sozinha, sem participação de nenhum homem. Tão logo atingiu a maioridade, o Rei Alfonso XIII assumiu este antigo privilégio, unicamente com varões, até seu casamento, quatro anos mais tarde.

OLYMPUS DIGITAL CAMERA Palácio Real de Madrid – Sala de Columnas – Comedor de Gala

 

A cerimônia se dá na magnífica sala de pedra chamada Salão das Colunas, disposta especialmente para o ato. O Lavapés é precedido pela Capela Pública. Acabada esta, os funcionários da Corte, os grandes e a Família Real vão em procissão da Capela Real ao Salão das Colunas. A multidão na Galeria é mais numerosa ainda do que no Domingo de Ramos.

Depois de ver entrar a procissão na Capela Real, os privilegiados convidados se apressam em ocupar seu assento reservado no Salão das Colunas e contemplam com sumo interesse a cerimônia.

Junto à parede oposta à entrada principal se instala um altar provisoriamente, atrás do qual é dependurado um sombrio tapete com uma bela representação da Última Ceia, que precedeu ao primeiro Lavapés.

De cada lado do altar há um grande assento semicircular recoberto por um tecido de lã, com um tamborete bastante alto. À direita e à esquerda do salão, mais longe do altar, se encontram umas longas mesas cobertas com toalhas brancas, e em cada uma delas há doze grandes jarros brancos e azuis e doze grandes pratos com pão. De cada lado do altar há pequenos jarros de ouro e, próximo destes, uma grande bacia de prata. Ao longo de um dos lados do salão se acham dispostas três tribunas: a do centro, para a Família Real; à sua direita, para o Corpo Diplomático, e à esquerda, para o Presidente do Conselho, o Governo e outros. No lado oposto está o espaço reservado para o público, onde se apinham pessoas de todas as classes, como as que entram para ver a Capela Pública. O centro do grande salão se acha completamente vazio e coberto com um magnífico tapete feito na Real Fábrica de Tapetes, de Madrid.

Pouco depois, vistosos lacaios aparecem conduzindo, um por um, os doze anciãos e doze anciãs, colocando-os cuidadosamente nos assentos de cada lado do altar. É necessário ter cuidado, porque vários são cegos. As mulheres, vestidas de negro, levam “mantillas” da mesma cor. Os homens tem posta a longa capa negra e levam chapéus de copa de antigo uso. Tanto as mulheres como os homens calçam grossos sapatos e meias de lã cinza.

A seguir, entra o Duque de Vistahermosa, introdutor de embaixadores, com o pessoal de seu Departamento. Coloca-se na entrada principal e acolhe, um por um, aos embaixadores estrangeiros, às suas senhoras e ao pessoal. As damas se vestem com magnificência, algumas em trajes branco e outras de cor, posto que na Quinta-feira Santa se permitem ainda cores, mas todas com belas “mantillas” brancas.

Entra o público. Como sempre, há alguém que conhece todo mundo e se empenha em nomear as várias pessoas importantes conforme entrem. Entre estes o Núncio de Sua Santidade, Monsenhor Frederico Tedeschini, o qual se mostra altivo com o grande título de Arcebispo de Lepanto. O conde de Welczeck, cortês e digno, representa a Alemanha na magnífica Embaixada do Paseo de la Castellana. Aquele senhor alto e distinto é Sir George Grahame, de aparência incrivelmente jovem para ser embaixador extraordinário de Sua Majestade britânica e ministro plenipotenciário, tendo sido já embaixador em Bruxelas antes de vir a Madri. O cavaleiro que sorri tão amavelmente, com simples fraque preto, é o sr. Irwing B. Laughlin, embaixador dos Estados Unidos. Não quiséramos que inventasse um uniforme fantástico, como fez um de seus colegas em outra capital da Europa. Mas se impõe a idéia, à falta de uniforme oficial como embaixador, de que poderiam lhe dar, como se faz às vezes em Inglaterra, o título de coronel honorário de algum regimento famoso da América. Um diplomata norte-americano vestindo o belo e imponente uniforme de coronel de Infantaria da Marinha deixaria na sombra a qualquer traje diplomático europeu. (…)

A tribuna governamental, à esquerda da régia, está completa também. Ali, o Presidente do Conselho, Almirante Aznar; o Marquês de Hoyos, Ministro e Prefeito de Madri; o chefe liberal Conde de Romanones; (…) o Marquês de Alhucemas, quatro vezes Presidente liberal do Conselho, agora Ministro da Justiça; o Duque de Maura, Ministro do Trabalho; (…) o chefe conservador, Conde de Bugallal. Ministro do Fomento. (…)

Madrid já se prepara para viver sua Semana Santa e os altares dos templos já estão cobertos panos de luto roxos. No Palácio Real se celebra, na manhã do Domingo de Ramos, a Procissão de Ramos. Desde a câmara real um breve cortejo se dirige à capela. Os Reis, as Infantas, e os palatinos portam os ramos simbólicos.

As horas da Paixão se comemoram profundamente no Palácio Real. Na Quinta-Feira Santa, à duas da tarde, no Salão das Colunas — onde se celebrou o banquete das bodas reais, onde tantas vezes soaram músicas e brilharam jóias e uniformes —, se celebra o Lavapés dos Pobres.

É um antigo costume da Corte Espanhola, manifestação de humildade e amor que nesse dia têm os Reis para com os desvalidos.

São doze homens e doze mulheres, vencidos pela idade, os que ali estão reunidos. O Sr. Bispo já lhes molhou os pés e o Rei, de joelhos, os seca e beija as pobres plantas rugosas. Depois, de joelhos, Afonso XIII se dirige ao seguinte ancião e, uma e outra vez, prossegue a tarefa. Um Grande de Espanha, a continuação, calça ao velhinho.

É a primeira vez que a Rainha vive esta cerimônia palatina, e se ajoelhou ante as anciãs, sob uma profunda emoção. Se levanta, vai de uma a outra, e põe no secar e beijar os pés delas um acento de unção silenciosa.

A cada pobre lhe é entregue nesse dia uma grande cesta com comidas feitas na cozinha do Palácio. E uma vestimenta nova, algumas roupas interiores, cobertores e umas moedas.

Ao entardecer da Quinta-Feira Santa faz-se a visita aos Monumentos, nos templos do entorno do Palácio Real. Os Reis vão a pé, acompanhados pelas irmãs de Afonso e por ajudantes palatinos. Alguns servidores levam, perto do pequeno grupo, as cadeiras de mão: mais por protocolo e por tradição do que por necessidade. Recorrem as igrejas do Sacramento, de São Justo, de São Ginés, de Santiago, da Encarnação…

Ao regressar ao Palácio, a Rainha Maria das Mercedes se sente cansada: a emoção do Lapa Pés, a caminhada a pé, a própria debilidade de seu organismo (…).

Na tarde da Sexta-Feira Santa os Reis presenciam desde os balcão principal do Palácio o desfile da Procissão. Entre os andores figura o Cristo dos Alabardeiros, que estes acompanham com um andar característico, lento, silencioso, ritual. Os soldados levam as armas “à funeral”, os tambores cobertos de luto. Uma marcha fúnebre dá o compasso grave ao desfile diante do Palácio. No balcão, a palidez do rosto da Rainha Mercedes sobressai entre as roupas negras”.

[1)]José Montero Alonso, Sucedió en Palacio. Ed. Prensa Española, Madrid, 1976, págs. 225 y 226, in “Covadonga Informa”, Núm. 152, Março de 1991 – Boletim oficial da Sociedad Española de Defensa de la Tradición, Familia y Propiedad – TFP-Covadonga.

Exceto a tribuna real e o centro do conjunto de galerias, todos os cantos do Salão das Colunas estão agora ocupados. Foram acesas as velas do altar. Os vinte e quatro anciãos vestidos de preto permanecem sentados, impassíveis. Produz-se um ligeiro movimento, todos se levantam e a Família Real entra. Saudando, primeiro aos diplomatas e depois à tribuna governamental, tomam seus assentos um por um. Predominam os do ramo bávaro. A Infanta Paz está no centro, com traje de prata e cauda cor de pêssego, diadema e mantilha branca e, sobre o peito, a fita violeta da Ordem de Alfonso XII, que lhe concedeu seu sobrinho em reconhecimento pelo seu labor educativo e social em favor dos espanhóis residentes na Baviera. Ao seu lado, seu filho mais velho, Infante Fernando, com suas esposa a Infanta Luísa, e sua irmã a Princesa Pilar, a qual leva também diadema, mantilha branca, várias condecorações, entre elas a da Ordem de Maria Luísa, e uma longa e brilhante cauda. À esquerda da Infanta Paz, seus três netos: Da. Mercedes, Don José e Don Luís, filhos do Infante Fernando. Ao lado deles, dois dos filhos do Rei, Dona Beatriz e Dom João, cujo uniforme simples de cadete naval contrasta com a magnificência do que leva o Almirante Aznar, na tribuna adjacente.

Alguns funcionários da Corte aproximam-se agora pelo umbral e se situam juntos. Desfilam os Grandes da Espanha e ocupam seus postos em fileira, os cavaleiros à esquerda e as senhoras à diReita, formando assim uma longa avenida desde a entrada até o altar. Chega o clero, com o Bispo de Sião, o qual ocupa o posto central nas fileiras sacras. Os últimos são o Rei e a Rainha.

Neste momento o espetáculo é grandioso. As damas mais nobres de Espanha, com vestidos de Corte de longas caudas, diademas e condecorações; ao lado oposto, os Grandes (de Espanha) com toda sorte de uniformes e condecorações de todas as Ordens, alguns anciãos, todos distintos, todos portadores de nomes e títulos ilustres, muitos deles servidores, em diversas ocasiões, do Estado. Reza-se em latim o Evangelho do dia:

“Vós chamais-me Mestre e Senhor, e dizeis bem, porque o sou. Se Eu, pois, (sendo vosso) Senhor e Mestre, vos lavei os pés, deveis lavar-vos os pés uns aos outros. Porque Eu dei-vos o exemplo, para que, como Eu vos fiz, assim façais vós também. Em verdade, em verdade vos digo: o servo não é maior do que seu senhor, nem o enviado é maior do que aquele que o enviou. Se compreendeis estas coisas, bem-aventurados seReis, se as praticardes”.

Então, é abençoada a assembléia, o Rei e a Rainha são espargidos com água benta e, dando as costas ao altar, voltam-se face ao público. O Rei, secundado pelo Duque de Miranda, seu grande camarista, entrega sua barretina militar a um cavaleiro e, tirando as luvas brancas e a espada, as dá a outro.

A Duquesa de São Carlos, mãe do Duque de Miranda, está de serviço com a Rainha. Sua Majestade confia sua bolsa e suas luvas a uma de suas damas e, neste mesmo momento, cingem a ela e ao Rei com amplas toalhas brancas oferecidas em bandejas de ouro pelo clero aos ajudantes para tal efeito.

Enquanto isto, um Grande de Espanha se ajoelha ante cada ancião e lhe tira os sapatos e as meias.

Comentário:  Notem que é um Grande de Espanha, a mais alta categoria de espanhóis.

Uma Duquesa, Marquesa ou Grande de Espanha, todas damas de Sua Majestade a Rainha, está genuflexa também ante cada anciã, executando a mesma função para com ela.

Alguns funcionários trazem os pequenos vasos de ouro das mesas colocadas ao lado do altar. O Rei, com a toalha branca por cima do uniforme e na mão um grande guardanapo, ajoelha-se ante o ancião mais próximo ao altar, que mantém o pé sobre a grande bacia de prata. O bispo lhe despeja um pouco de água e o Rei o seca cuidadosamente e o oscula.

Deslocando-se de joelhos, repete a cerimônia com cada um dos outros onze.

Comentário: Notem bem: o Rei, passando de um pobre para outro, desloca-se de joelhos.

• Perfeito equilíbrio: o Rei, que chega ao último ato de humildade, tem um Grande de Espanha que o serve no mesmo ato.

Algumas vezes seus lábios tocam alguma ferida. Outras vezes, um artelho inchado, atingido por alguma enfermidade ou transformado em algo repugnante pelos anos e pelo trabalho. À medida que passa o Rei, o Grande (de Espanha), encarregado de cada pobre, volta a lhe colocar as meias e os sapatos.

Comentário: É muito bonito o equilíbrio, porque o Rei chega ao último ato da humildade: oscular os pés descalços, muitas vezes doentes e repugnantes, dos pobres a quem ele vai servir, lembrando o excelso exemplo de Nosso Senhor.

De outro lado, o cerimonial não perde de vista que ele é o Rei. Então, enquanto o Rei oscula e seca os pés do mendigo, já está tudo previsto para que outros lhe calcem as meias e os sapatos. Dando a entender, assim, que o Rei não deixa de ser o Rei e que ele tem quem o sirva.

Este que ajuda o Rei é também um Grande de Espanha, o qual, seguindo o exemplo do Rei, também serve o pobre vestindo-lhe as meias e os sapatos.

 

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O Lavapés na Corte de Alfonso XII
(La Ilustracion Española y Americana – El día 25 de marzo de 1880, Jueves Santo )

 

• Na antiga e católica Espanha, o pobre era tratado com dignidade por ser igual – como homem e católico – ao rico. O contrário disso é a mentalidade de um “grande de Hollywood”…

A cerimônia é profundamente rica em significados, de emoção incrivelmente pungente: assim é a Espanha. Em nenhum outro país poderia assumir valor ou significado tão vivaz. Na Espanha, a pobreza não é ignóbil. Se o transeunte não pode assistir ao mendigo, deve lhe dar, em seu lugar, uma desculpa cortês. (…)

Sobretudo, o fracasso nas coisas deste mundo não se considera como um crime, pois todo bom espanhol sabe que o êxito mundano, a eminência, a grande riqueza, tem que se conquistar, como tudo nesta vida, e que muitas vezes só se obtém pelo egoísmo, a arrogância e a dureza de coração…

Comentário: Está muito bem formulado isto no seguinte sentido: é o contrário da mentalidade “hollywoodiana” enquanto aplicada a negócios.

Segundo a mentalidade “hollywoodiana”, a finalidade da vida é gozá-la. O meio para gozá-la é ter dinheiro. E, portanto, o meio de ter dinheiro é aplicar a vida no business, em certo gênero de trabalho que fazem com que de um modo rápido e lucrativo a pessoa, em pouco tempo, faça bastante dinheiro e fique muito rica.

Estes são os bem sucedidos da vida e são  não os Grandes de Espanha, mas os “grandes de Hollywood”. Segundo a mentalidade Hollywood, esses são os “grandes”…

Ora, na Espanha, naquele tempo muito mais imbuída de Civilização Cristã do que, infelizmente, hoje, o modo de considerar o pobre era inteiramente diferente.

Há o pobre. O pobre pode ser um fracassado. Tentou fazer fortuna, mas as circunstâncias infelizes lhe impediram de obtê-la. Ele continua, como pobre, objeto de atenções especiais.

Por exemplo, a um mendigo que pede dinheiro, não se passa diante dele sem dizer-lhe algo. Não se tendo dinheiro no momento, é preciso, pelo menos, dizer ao mendigo uma palavra amável, um pedido de desculpa, algo assim. Pois é uma criatura humana e tem todos os direitos a ela devidos. Mostrando a miséria em que se acha e pedindo auxílio, é próprio à natureza humana que o pobre tenha direito de que um outro que seja mais provido do que ele – mas que enquanto natureza humana, são iguais, enquanto católicos são iguais –, esse homem olha para o que não dispõe de meios de se manter e lhe diga uma palavra amável, a fim de dar a entender que respeita nele o filho de Deus.

Como isso dignifica a condição humana. Mas como também tem um valor muito importante no sentido de fazer imbuir as pessoas de que a finalidade da vida não é ganhar dinheiro, mas ser digno. E que essa dignidade um pobre miserável pode ter perfeitamente. Por causa disso, é perfeitamente normal e obrigatório que uma pessoa, que faça um pedido de esmola, receba um tratamento cortês e gentil.

Ora, isto não é conforme a psicologia “hollywoodiana”. Segundo esta, se um homem fez dinheiro no business, ele tem direito a tudo e não tem que responder a um miserável fracassado, que é “cretino”, que não sabe fazer negócio, que não sabe ganhar dinheiro e que, portanto, é “desprezível”.

Depois, há o aspecto do corre-corre no estilo holywoodiano. O homem do business está sempre correndo atrás do dinheiro, porque time is money – o tempo é dinheiro – e deter-se para dizer uma palavrinha, para conversar com um infeliz desses, para dizer simplesmente “boa tarde”, “que Nossa Senhora o ajude”, qualquer coisa assim, é uma gota de ouro porque é uma gota de tempo que se perde com esse homem… Então vamos para frente! Vamos para frente! É preciso correr!…

São duas concepções completamente diferentes.

• Os revolucionários, que deveriam detestar mais a atitude “hollywoodiana”, odeiam a cerimônia espanhola, por ser muito bela

Comentário: O curioso é que os revolucionários odeiam mais essa cerimônia do que odeiam a atitude “hollywoodiana”. Entretanto, essa atitude “hollywoodiana” é muito mais contrária ao igualitarismo revolucionário do que essa cerimônia aqui. Por que? A cerimônia aqui descrita é bela e o espírito revolucionário detesta o belo. Ela constitui um profundo, um espantoso, um até desconcertante ato de humildade, de tão profundo que é, de tão marcado que é. Mas é natural isto, pois se trata de imitar a Nosso Senhor, que deixou os seus próprios Apóstolos pasmos com o que Ele fazia. Eles aceitaram porque viram que Nosso Senhor estava impondo – com altíssimas finalidades que todo mundo conhece.

• É próprio da grandeza e do espírito cavalheiresco humilhar-se diante da dor e da desventura

Comentário: O ar de grandeza e de corte que eram empregados nessa cerimônia, visava precisamente fazer entender que, por maiores que fossem aqueles homens que iam lavar os pés dos mendigos, numa perspectiva do Evangelho e do exemplo dado por Nosso Senhor, eles – naquela grandeza, sem perder aquela grandeza, pelo contrário, revestidos dela – deveriam fazer atos de profunda humildade. Porque é próprio da grandeza humilhar-se diante da dor, humilhar-se diante da desventura. Isso faz parte do espírito cavalheiresco.

Desta maneira, a verdadeira tradição católica estabelece um equilíbrio, que é difícil de imaginar como fruto fora da Civilização Católica.

 

• Terminado o ato de humildade, as coisas voltam ao seu natural: o Rei e a Rainha lavam as mãos em vasos de ouro

Enquanto o Rei lava os pés dos anciãos, a Rainha lava de modo análogo os das anciãs. Demora mais porque, depois de cada lavapés, precisa levantar-se e voltar a ajoelhar-se, dado que seu longo vestido torna impossível o procedimento mais expedito do Rei. Este, ao terminar, a fica esperando no centro do salão, ante o altar. Ao cabo de certo tempo, a Rainha se aproxima dele, acompanhada do grande camarista que leva seu longo manto azul celeste forrado com um tecido de fios de ouro e bordejado de zibelina.

São trazidos os pequenos vasos de ouro, e os Soberanos lavam as mãos, sendo atendida a Rainha pela Duquesa de San Carlos, e o Rei pelo Duque de Miranda.

Comentário: Vejam que coisa bonita: depois de terem lavado os pés dos mendigos, eles lavam as mãos – é natural –, mas em vasos de ouro. Porque a realeza é a realeza.

• Grandes de Espanha acompanham os mendigos até a mesa de refeição

Enquanto isto, cada dama e cada Grande (de Espanha) acompanha cerimoniosamente a seu ancião ou anciã até deixá-lo em um assento da longa mesa preparada de antemão.

Comentário: É uma mesa para refeição. Considerem a beleza da cena. Então, para levar esses pobres para a mesa preparada para eles, há um Grande ou uma Grande de Espanha para acompanhar.

Observem que vários eram até cegos, tinham necessidade, portanto, desse acompanhamento. Mas então é o Grande de Espanha que serve de guia para o pequeno, e vão juntos até à mesa do banquete…

• A refeição é servida pelo Rei, aos homens, e pela Rainha, às mulheres

O Rei se dirige à dos homens, e a Rainha à das mulheres.

Os grandes camaristas oferecem os pratos aos Soberanos, que os colocam ante os hóspedes.

O Rei começa por servir de copeiro, pondo os pratos diante dos mendigos.

Em seguida, o Rei volta à cabeceira da mesa e, a partir dali, vai recolhendo, um por um, os pratos, que entrega ao grande camarista, o qual os faz passar, de mão em mão, até fora do salão. Desta maneira, os oito ou nove pratos são rapidamente servidos. O primeiro é uma “tortilla” espanhola de cebola e batata, apetitosa e nutritiva.

Vem a seguir dois ou três pratos de peixe (pois é vigília). Depois um “quezo de bola” inteiro. (…) Serve-se depois aos anciãos um pequeno barril de azeitonas, grandes quantidades de ameixas, pêssegos em compota e, por fim, algo que parece uma torta de arroz. (…)

No fim, são tirados os jarros, cada um dos quais contém dois litros de vinho, e as travessas de pão, bem como os copos e os saleiros, porque toda a comida, toda a baixela, os jarros, os saleiros, etc., são dados de presente aos anciãos, que os levam consigo, conservando-os como valiosas lembranças, enquanto os alimentos manterão às suas respectivas famílias durante uma semana ou mais.

• Copeiro eficaz e amável, Sua Majestade Católica, o Rei de todas as Espanhas!

Então o Rei, com um grande movimento de braço, tira a toalha da mesa e a passa ao grande camarista. Sua tarefa está concluída, e foi feita com eficácia e amabilidade, como quase tudo o que é empreendido por Dom Alfonso.

Eficácia e amabilidade. Copeiro eficaz e amável, Sua Majestade Católica, o Rei de todas as Espanhas…

À maneira tão sua e inigualável, fez sentir a todos naquele grande salão não só que estão em sua casa, mas, além disso, que tomaram parte pessoalmente em todos os acontecimentos da incomparável cerimônia. É o Rei das Espanhas atuando com perfeição, como representante de todos os católicos do mundo, pondo diante deles, uma vez por ano, nesta pictórica cerimônia secular, o alto ideal de humildade e serviço.

Comentário: No caso concreto, é uma cerimônia tão bonita que valeira a pena ser retratada.

• O Rei e a Rainha se despedem com reverências: é a afabilidade dos que têm uma alta categoria

Sem embargo, o homem nunca se perde no Soberano, e Alfonso de Borbón y Habsburgo, que sempre sabe dar esse toque mágico que humaniza todos os deveres e todas as relações da vida…

Comentário: Recordem a alocução de Pio XII a respeito do modo nobre de fazer as coisas e a questão do tipo humano.

…cumula toda a assembléia de uma sensibilidade ardorosa e compreensiva.

O Rei lava as mãos novamente, volta para o altar, toma seu sabre, suas luvas, seu capacete, e espera a Rainha. (…)

A magnífica procissão volta a formar-se e sai, tendo, ao fim, os soberanos. Ao deixar o salão, o Rei se inclina, e a Rainha faz profundas reverências à tribuna do Governo, à régia e à diplomática. O grupo real deixa então seus assentos, inclinando-se à diReita e à esquerda.

Comentário: É outro aspecto a ser registrado: o Rei e a Rainha se inclinam diante de pessoas menores do que eles – os diplomatas etc. são muito menos do que eles. É a afabilidade dos grandes, a afabilidade dos que têm uma alta categoria. O que se encaixa dentro de muitos dos textos de Pio XII e que se encontram no livro Nobreza e elites tradicionais análogas nas alocuções de Pio XII ao patriciado e à nobreza romana.

Acompanham-nos os diplomatas, os Ministros da Coroa e o público em geral… Terminou o Lavapés.

• No extremo oposto à cerimônia espanhola está o igualitarismo “hollywoodiano”

Comentário: No extremo oposto os têm a cerimônia de posse de um Presidente dos Estados Unidos (ver, por exemplo, a descrição feita no artigo As cerimônias da posse de Eisenhower à luz da doutrina católica, “Catolicismo”, N° 27, março de 1953).

• Afonso XIII, o arquétipo do homem fino

Comentário: Faltava alguma coisa a Afonso XIII? Ele era o arquétipo do homem fino, do homem aristocrático. Era esguio, alto, magro. Não um homem assim pré-tuberculoso, nada disso, um homem forte. Muito esguio, muito magro, muito elegante, usando um bigodinho, penteado e arranjado com a última delicadeza, asseio naturalmente em toda a sua pessoa. Modelo de elegância, quer quando usava uniforme, quer quando portava roupa civil comum.

Nas ruas de Paris – ele ia muito à França –, era muito aclamado pelo tipo humano que representava. Na capital da república francesa, na cidade onde Luís XVI e Maria Antonieta haviam sido decapitados, ele, que se chamava Afonso de Bourbon e Habsburg – Bourbon por causa do pai; Habsburg por parte de mãe –, era aclamado pelas multidões.

• A corajosa atitude de Afonso XIII, no atentado à carruagem real, instantes após seu casamento

Comentário: Faltava alguma coisa a ele? Sim, e isto não está negado nas alocuções de Pio XII… Afonso XIII foi um homem de coragem?

Ele só correu risco pessoal numa ocasião de sua vida. Foi por ocasião de seu casamento com a Rainha Vitória Eugênia de Battenberg. Os Battenberg constituíam uma pequena Casa principesca alemã que a Rainha Vitória da Inglaterra apoiava muito. A Inglaterra nesse tempo intervinha nas coisas portuguesas e espanholas de um modo desagradável.

Houve a cerimônia do casamento real e a carruagem dourada em que estavam ele e com a esposa, voltava da Igreja, quando na proximidade do palácio real houve um atentado anarquista, tendo sido lançada uma bomba de dinamite que matou algumas pessoas, mas que de fato era destinada a matar o Rei e a Rainha.

No meio do estampido todo, com a surpresa e a indignação que o fato causou à população, ele imediatamente pulou do carro, tirou o quepe e, com o perigo de ser alvejado de novo, bradou: “Arriba España!” Para dar a entender que ele não se dobrava, que não tinha medo e que ele ia para frente.

• Faltava a Alfonso XIII o pulso firme, próprio do tipo humano do Rei

Este seu gesto é muito bonito, mas não basta. Era preciso que o povo sentisse nas suas ações subsequentes, que ele agiria – por meio de uma pena, que poderia inclusive ser a pena de morte – contra o crime que se cometera.

Esse lado punitivo contra o crime, contra a injustiça, junto com a prática da verdadeira humildade, constitui o tipo humano do nobre, do tipo humano do Rei, que é o nobre dos nobres.

Eu fixo o que disse: eu quis mostrar o que faltava ao tipo humano de Afonso XIII. Seu tipo humano tinha muito de perfeito, de admirável, de extraordinário, mas faltava aquele pulso.

(Comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP em 25/11/92)

 

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Soyecourt         

 

           “A 24 de julho de 1784 recebia o véu no Carmelo Mademoiselle Camille de Soyecourt [1757-1849], filha da mais alta nobreza da França. Jovem, entretanto, tão franzina e sofrendo, segundo os médicos, de uma moléstia incurável do coração, que todos julgavam não poder permanecer mais que seis meses no convento. Contudo, ela não somente sobreviveu muitos anos, como sem dúvida sua personalidade teve destaque notável, embora desconhecido, na preservação do Carmelo de Paris durante a Revolução.
          Em 1792, seu convento foi invadido e as religiosas dispersas. Irmã Camille, liderando um grupo delas, instalou-se numa casa firmemente decidida a manter vivo o espírito carmelitano. Denunciada, a pequena comunidade foi presa. Quando obteve a liberdade. Mademoiselle de Soyecourt refugiou-se em casa de sua família, mas por pouco tempo, pois seus pais e duas irmãs foram encarcerados. Após numerosas peripécias, empregou-se numa fazenda. Durante todo esse tempo não deixou de cumprir o mais rigorosamente que pôde os preceitos do Carmelo: jejuava, recitava o Ofício nas horas devidas e confessava-se, com grande dificuldade, semanalmente, com um padre refratário [Nota: que recusou aceitar a Constituição civil do clero, imposta pelos revolucionários]. Um dia teve a notícia da condenação de seus familiares, todos guilhotinados. Soube então que sua irmã deixara um filho, pequeno ainda.
          Apesar de sua dolorosa situação, Irmã Camille, até a morte foi tutora do sobrinho. Expulsa da fazenda onde trabalhava, pois a morte de seus pais traiu sua pessoa, a religiosa mendigou algum tempo. Tendo encontrado uma irmã de seu convento, decidiu restabelecer sua Ordem. Com o dinheiro das esmolas e com o auxílio de padres refratários, obteve a capela de um seminário, recomeçando os ofícios religiosos. Terminado o Terror; Mademoiselle de Soyecourt, então uma figura alta, pálida, grave e suave, decidiu re-obter para seu sobrinho e para seu convento, a fortuna de seus pais. Causava espanto aos notários e homens da lei, a presença dessa mulher paupérrima, falando de milhões, de venda de terras e de compra de imóveis. Mas conseguindo integralmente o que desejava, a religiosa chamou para junto de si as suas irmãs, dispersas.
          E no convento carmelita de Paris reinstalou sua comunidade. Aí ela viveu mais de 45 anos, não sem problemas. Por exemplo, em janeiro de 1811 Fouché [1759-1820, em sua juventude ingressou no seminário onde se ordenou religioso da ordem dos Oratorianos; após dez anos abandona seu cargo de professor no seminário para entrar em política; exerceu seu poder durante a Revolução Francesa e o império napoleônico; foi o fundador das modernas polícias políticas e de suas espionagens] foi informado de que uma senhora carmelita, superiora do Carmelo ocupava-se ativamente em copiar e distribuir a Bula de excomunhão… do próprio imperador. Foi por isso presa num lugar bem distante do convento, o que não a impedia de atender sua comunidade, fazendo-lhe visitas inteiramente disfarçada, e passando, desse modo, diante dos guardas, com toda segurança. A Restauração tirou-a desse exílio. Quando suas dificuldades morais pareceram diminuir, começaram, as físicas. Seu corpo tornara-se quase diáfano, por causa dos jejuns e penitências. Aos 85 anos, ainda dormia sobre uma tábua, apesar da gota dolorosíssima e de dores de estômago que não lhe permitiam repousar. Ela manteve, entretanto, como sempre em sua vida, inalterável bom humor e sua proverbial intrepidez. Repleta de dores, veio a falecer, em 1849, aos 92 anos de idade”.
(G. Lenotre, “Vieilles maisons, vieux papiers”, 2ème série, Perrin, Le roman d’une carmélite, pags. 343-359:)

 

Comentários do Prof. Plinio Corrêa de Oliveira para sócios e cooperadores da TFP, em 17.2.1970:

Os senhores tem ouvido falar a respeito do “rio chinês” [expressão utilizada para significar um itinerário cheio de voltas, de dobras e de surpresas, como seria o de algum caprichoso rio chinês]. Eu queria que os senhores se colocassem nessa biografia, não na posição de um mero leitor, mas de quem a viveu. Porque são coisas muito diferentes a gente ler agora essa vida, acabar e dizer: “que grande mulher foi a mademoiselle Camille de Soyecourt!” Outra coisa é a gente se imaginar dentro de sua pele.
A gente vê, então, tudo quanto foi acontecendo para ela, como sendo uma coisa com uma vocação definida, um objetivo muito definido, ela adentrou esse objetivo com todo o empenho de sua alma. Quando os senhores vão ver o curso da vida, dão se conta de que foi tipicamente do “rio chinês”. Quer dizer, ela ser carmelita, entra no Carmelo, forma-se. Ela poderia esperar, por exemplo, uma vida como a de Santa Teresa, a Grande, ou então uma vida de Santa Teresinha. Ou seja, uma vida inteira transcorrida no Carmelo, com essas ou aquelas dificuldades, mas dentro da vida carmelitana. Com certeza ela tinha tido mil apetências, sugeridas pelas graça, para isso.
E o que acontece? Em vez de ela ter essa vida, vem a Revolução Francesa e vai para o cárcere. Vamos dizer quer tenha pensado em martírio: “Vou dar a minha vida, vou ficar uma santa. Está bem, aceito com todo gosto!” Conformidade. Foi posta em liberdade. Posta em liberdade esperava viver, ao menos sozinha, para Deus, mas se transforma em chefe de família, apesar de solteira. E fica tutora de um “bambino” [seu sobrinho] que tem que criar, formar etc., etc. Era uma moça rica e perde a fortuna. Os pais vão para a guilhotina, e ela se torna criada numa fazenda, ou seja trabalhadora manual.
Então, ela tinha dado sua vida, que começa nascendo nobre, acaba em religiosa e depois desfecha em ser trabalhadora manual em fazenda. Nada exclui – a biografia aqui não entra nesses pormenores – que tenha tido que limpar estábulos, limpar vacas e fazer outras coisas ultra prosaicas desse gênero, quando não era fazer serviço prosaico para os donos da fazenda, talvez coisa pior do que tratar das vacas. Ela toca para frente. É posta fora desse emprego e se torna mendiga. Mendiga com o menino.
Começa a mendigar de um lugar para outro. De repente a Revolução Francesa passa e ela se transforma em mulher de negócios. E começa a visitar cartórios para recompor a fortuna a que tinha direito…
Os senhores estão vendo como tudo isso é completamente contrário ao que ela quer. Mas ela continua sempre com o mesmo objetivo: ser carmelita! A tal ponto que reconstitui o Carmelo. Reconstituído o Carmelo, nele entra para lá recomeçar a vida normal de carmelita… Prisão! Prisão até o tempo dos Bourbons. Prisão longe, uma espécie de exílio, uma coisa assim. Novamente sua vida de carmelita se interrompe. Afinal volta para o Carmelo, porque voltam os Bourbons, que restabelecem a ordem de coisas normal. Volta para o Carmelo.
Dir-se-ia então que ia levar uma vida tranqüila como carmelita que, afinal, está no seu convento e começa a rezar. Mas inicia outro gênero de provação. Dir-se-ia: “Bem, coitada, é a fase final. Agora então vai morrer daqui a pouco e vai repousar em Deus”… Não senhor! Nada de repousar em Deus. Lutar na terra até o último alento! Então fica vivendo até os noventa e tantos anos, sempre praticando penitência, modelo de religiosa, agüentando as doenças nas costas, e afinal de contas morre numa idade que, com certeza, nunca podia imaginar que ela atingisse depois de tantas doenças e outras provações.
Agora nós vamos perguntar, aos olhos do espírito moderno, como considerar isso: foi uma vida frustrada ou foi uma vida realizada? É a pergunta que a gente deve fazer. Para os homens de espírito moderno foi uma vida frustrada. Porque a vida realizada seria se ela tivesse entrado no convento e tivesse ficado religiosa direitinho até o fim. Como teve coisas que atrapalharam a vida dela e a obrigaram a ser uma porção de coisas que não queria, ela cem vezes durante a vida deveria ter se sentido frustrada, deveria ter abandonado a vocação. Afinal de contas quando veio, dentro da vocação, a doença, ela poderia ter dito: “Não tem mais solução! Deus me entregou! Porque agora que eu poderia levar a vida normal de uma carmelita, começo a levar uma vida de doente!…”
Nós, entretanto, dizemos que foi uma grande vida realizada. E é impossível os senhores terem ouvido essa ficha sem sentirem a maior admiração por ela.
Mas então perguntamos: o que é a realização? E é aqui que entra o choque do homem do mundo contra o espírito católico. Por que no que ela foi martirizada segundo o espírito da Igreja? No que, segundo o espírito do mundo, ela não foi realizada? Segundo o espírito do mundo, ela não foi realizada porque não levou a vida que quis, não realizou a obra que empreendeu. Em última análise, a noção de “realizado” segundo o mundo é ou a de um indivíduo que levou a vida que quis, ou de um indivíduo que ganhou muito dinheiro. Estão aqui os dois conceitos de homem realizado.

Ora, ela não ganhou muito dinheiro e não levou a vida que quis. Logo ela não foi realizada. Mas é impossível nós ouvirmos a leitura dessa ficha sem vermos que ela foi realizada. Então o que é, no sentido verdadeiro da palavra, a realização? A realização não é o que o mundo pensa, mas realização é algo diverso. A realização é – antes de tudo – realização de si mesma. Antes de tudo não digo no sentido supremo, mas no sentido mais imediato. É a realização de si próprio.
Em outros termos, a gente vê que ela realizou uma grande personalidade, foi uma pessoa de grande virtude e que no esplendor de sua virtude manifestou numerosas qualidades até naturais de que a Providência a tinha dotado. Quer dizer, ela tirou de si tudo quanto potencialmente tinha. Levou até à perfeição mil coisas que nela estavam potencialmente, como uma semente que deu inteiramente uma esplendida árvore. Então, o realizar-se – nesse sentido mais imediato da palavra – é o atingir a sua própria perfeição. Se fez o que quis ou não fez, não tem importância. A importância é ter chegado à sua própria perfeição. Isso sim! Essa é a primeira noção.
Segunda noção: vemos que ela realizou essa perfeição não através de uma série de fracassos que tenham ficado em fracasso. Mas vemos que sua vida tem uma continuidade. Essa continuidade, esse plano não era assim que ela queria, mas eram planos que Deus tinha a seu respeito. Ela fez a vontade de Deus!
Em que sentido se deve tomar essa afirmação? No seguinte sentido: quando acabamos de ler essa vida, vemos a grande obra dela para a glória de Deus entre os homens. E que não foi tanto de acabar fundando um convento – que é uma obra excelente – mas uma coisa muito maior do que fundar um convento: é ter deixado um grande exemplo! Ser um grande exemplo de perseverança, um grande exemplo de resolução, um grande exemplo de força de alma, de confiança na Providência Divina, de obediência aos desígnios de Deus nas circunstâncias mais adversas da vida. De maneira que enquanto sua memória for conhecida pelos homens, haverá homens fracos, em condições difíceis, que terão um alento maior parta enfrentar as dificuldades da vida, por causa de seu exemplo. E ela será a força dos fracos, será a luz daqueles que estiverem na incerteza, na penumbra, enquanto a memória dela se guardar entre os homens. Por que? Porque foi o grande exemplo que ela deixou. E deixar um grande exemplo é uma coisa muito maior do que fazer uma grande obra.
Um grande convento é uma coisa esplendida. Mas se um grande convento não fosse um grande exemplo, não adiantava de nada. Quer dizer, abaixo do culto a Deus, a melhor coisa que podemos fazer é edificar por nosso exemplo. As nossas palavras e as nossas ações vêem abaixo do exemplo. As palavras movem, o exemplo arrasta. Ela deixou um exemplo de força de alma! Tanto mais que a gente percebe em sua biografia que através de todas as incertezas de sua vida ela foi sempre forte. Nunca ela se sentiu quebrada, sempre caminhou para a frente cumprindo o dever de acordo com o que queria a Providência, sem perder a unidade do que estava fazendo. Mas entendendo que realizando o dever do momento, ela fazia a vontade de Deus.
No Céu, ela está vendo essa unidade que Deus quis e talvez não tivesse calculado que o exemplo dela irradiasse tanto, que pudesse ser tão conhecido. É uma pessoa extraordinária, que talvez ainda venha a ser canonizada. Isso é a vida de uma pessoa que cegamente vai seguindo diante das dificuldades, e fazendo, e agindo e não se incomodando. No fim vem a glória, a glória de ter dado um bom exemplo obedecendo a Deus. Parece-me que essa é a grande lição que a ficha do “Santo do Dia” de hoje nos ensina.

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Kazimierz_Wielki_by_Bacciarelli

Esse jovem Príncipe polonês tornou-se um exemplo de cavaleiro cristão,
modelo de castidade e baluarte da Igreja contra o cisma russo e a heresia protestante

Detentor de merecidos títulos de grandeza terrena como Príncipe da Polônia e Rei natural da Hungria, São Casimiro foi, entretanto, maior ainda por sua inteira submissão à vontade de Deus. Seguindo as pegadas de Nosso Senhor Jesus Cristo, procurou moldar sua alma segundo a fisionomia moral do Divino Redentor, tornando-se o primeiro santo jovem leigo da era dita moderna.

Foi ele o segundo dos 13 filhos que teve Casimiro IV (1427-1492), Duque da Lituânia e Rei da Polônia, com a Princesa austríaca Elisabeth de Habsburgo, filha de Alberto II, Imperador do Sacro Império Romano Alemão. Casimiro nasceu em 3 de outubro de 1458, no castelo de Wawel, em Cracóvia.

Para a educação de seus filhos, Casimiro IV nomeou o polonês João Dlugosz (1415-1480), Cônego de Cracóvia, que se distingüia por grande saber e provada virtude.

Era costume na época colocar os príncipes sob a influência de professores filiados a correntes renascentistas. Por isso o jovem Príncipe Casimiro, que teve como mestre o italiano Filippo Bonaccorsi, cognominado Calímaco, o qual ensinou-lhe latim e retórica. Esse mestre passou a chamar o discípulo jovem divinizado, por causa de suas virtudes.

Visando sujeitar seu corpo às leis do espírito, Casimiro utilizava-se do cilício e da disciplina, jejuava e dormia em dura terra, em meio ao ambiente de frivolidade que as cortes renascentistas criavam. Com isso sua alma desprendia-se dos prazeres fáceis da vida mundana, evolando para celestes grandezas da perfeição cristã.

Contemplação dos mistérios da Paixão: fonte de fortaleza
A paz interior de sua alma manifestava-se na louçania e serenidade do seu semblante, afeito à contemplação. Mesmo com as ocupações inerentes ao seu alto cargo, não se esquecia que, além dos deveres de estado, mais ainda devia zelar pela honra do Divino Salvador, que padeceu cruéis sofrimentos por amor aos homens.

Sua alegria consistia em estar junto ao Sacrário para adorar Aquele que é o Soberano absoluto de todos os corações, tanto dos reis quanto dos súditos. Por isso, entrando nas igrejas, ajoelhava-se diante de Jesus Sacramentado, esquecendo-se de tudo quanto era terreno. Passava aí muitas horas da noite na contemplação dos mistérios da Paixão. Muitas vezes, não continha as lágrimas ao contemplar o Divino Crucificado, considerando as ofensas por Ele suportadas, ao mesmo tempo em que ardia em desejos de repará-las. Seu rosto ficava então inundado por uma luz sobrenatural.

Tinha muita caridade para com os necessitados de qualquer espécie: amparava os fracos, encorajava os oprimidos e levava o bálsamo de uma palavra cheia de afeto aos prisioneiros, enfermos e angustiados.

Se assim procedia em relação aos desvalidos, seu trato na Corte era igualmente exímio. Tinha tal aptidão para os estudos, que, aos 13 anos, proferiu primoroso discurso em latim, saudando o Legado Pontifício. Dois anos depois, com mesmo talento, homenageou o embaixador veneziano.

Baluarte contra o cisma russo e a heresia protestante
A pedido de seus partidários húngaros, esse casto e valente Príncipe, com apenas 13 anos de idade, em 2 de outubro de 1471 precisou armar-se como um verdadeiro guerreiro para conquistar a coroa de Santo Estêvão, à frente de um exército de 12 mil homens. Não lhe faltavam, por parte de sua mãe, os títulos dinásticos para depor o então Rei da Hungria.

Do trono de São Pedro, Sixto IV, vendo que o perigo turco ameaçava a Cristandade européia, interveio no sentido de serenar os ânimos, evitando assim a dispersão das forças cristãs em lutas intestinas.

Mesmo tendo se submetido ao apelo do Papa, São Casimiro conservou o título de “senhor natural por direito de nascimento do reino de Hungria”.

Em suas terras, lutou valentemente para que a verdadeira Igreja fosse favorecida. Atacou duramente as heresias e os movimentos subversivos da época, tendo mesmo estabelecido um pacto de defesa antiturca com os Estados italianos.

Após a morte de Sixto IV, São Casimiro tornou-se inquebrantável escudo da verdadeira ortodoxia contra as heresias provindas da pseudo-reforma protestante e dos erros da igreja cismática russa. Acompanhou sempre seu pai na administração do reino bem como nas viagens que este empreendeu a reinos vizinhos. Por saber o latim, seu pai o utilizou em Danzig como intérprete no encontro que manteve com o Rei sueco Cristiano.

Aquela foi uma época em que se verificavam muitos confrontos do Rei polonês com os senhores feudais revoltados. Além disso, ferrenhos combates foram travados com os Cavaleiros da Ordem Teutônica, já em franca decadência, que foram obrigados a assinar um tratado de paz com o Reino polonês, mediante o qual cederam a este a Prússia Ocidental.

Fiel ao voto de castidade, não temeu a morte
Em 1483 ocupou-se da administração dos Ducados da Lituânia, preocupando-se sempre com o bem dos súditos.

Nessa ocasião que seu pai manifestou-lhe o desejo de que ele se casasse com a filha do Imperador alemão Frederico III. Tendo São Casimiro contraído tuberculose, os médicos julgavam que o casamento o curaria, pois acreditavam que a vida austera do jovem Príncipe era a causa da doença. Singular constatação! São Casimiro, porém, preferiu permanecer fiel a seu voto de castidade perfeita.

A tuberculose na época era uma doença incurável. Assim a moléstia agravou-se rapidamente e sua morte não tardou. Com os olhos postos numa imagem do Crucificado e invocando Maria Santíssima, ele a enfrentou com a serenidade de alma própria aos santos.

Recebeu com devoção os santos sacramentos, e em 4 de março de 1484 entregou sua alma ao Criador. Suas últimas palavras, depois de oscular com amor o crucifixo, foram: “Em vossas mãos, ó Jesus, entrego o meu espírito”. Sua alma, segundo testemunhas, subiu ao Céu em meio a grande luminosidade.

Corpo incorrupto e perfume: imagens de castidade perfeita
A morte o colheu aos 25 anos, em Gardinas, mas seu corpo foi enterrado na catedral de Vilnius, capital da Lituânia, na capela dedicada a Nossa Senhora.

O primeiro biógrafo do santo foi Zacarias Ferreri, enviado à Polônia a mando do Papa Leão X, para coletar dados sobre a vida de Casimiro, cuja santidade já era conhecida e confirmada por muitos milagres. Entre estes, destacam-se a cura de doentes incuráveis e a ressurreição de uma menina, natural de Vilnius.

O mesmo Papa Leão X canonizou São Casimiro em 1521.

Em 6 de agosto de 1604 — para gáudio e edificação dos fiéis católicos e glória de São Casimiro — sua sepultura foi aberta na presença de várias testemunhas. Devido a um milagre, seu corpo encontrava-se inteiramente incorrupto. As roupas também estavam intactas, apesar da umidade existente. Como admirável símbolo de sua castidade, o corpo exalava um agradável perfume. Encontrou-se também em seu peito o hino Omni die dic Mariae laudes animae [Minha alma, cada dia, dirija um canto a Maria], um dos mais belos cânticos da Idade Média, dedicado à Virgem Santíssima (Acta Sanctorum, Martii I, Parisiis, 1865).

Seu nome é glorificado no calendário litúrgico em 4 de março, quando, segundo velho costume, milhares de fiéis vão venerar suas preciosas relíquias em Vilnius.

Em 1943 o Papa Pio XII proclamou São Casimiro Patrono principal da juventude lituana em qualquer parte do mundo. É também Padroeiro da Polônia.

Admirável na Terra, mais ainda no Céu
São famosas, ainda, as aparições de São Casimiro.

A primeira deu-se no ano de 1518 quando um grande exército moscovita estava prestes a dominar a cidade de Polotsk, baluarte na defesa da Lituânia, situada na confluência dos rios Dauguva e Palata. O fogoso exército lituano, composto de dois mil homens partiu intrépido para socorrê-la.

Entretanto o transbordamento do rio Dauguva impedia que eles alcançassem o inimigo, postado à outra margem. O que fazer? Enquanto estavam nesse impasse, os lituanos viram surgir um jovem cavaleiro montado em corcel branco, convidando-os a segui-lo rumo à outra margem.

Impelidos pelo entusiasmo, os lituanos seguiram o valente cavaleiro, e atravessando o rio num lugar propício atacaram os moscovitas, alcançando brilhante vitória. O cavaleiro da veste alva desapareceu como por encanto. Mas todos reconheceram nele São Casimiro, seu protetor.

Outra aparição ocorreu em 1654 ao comandante russo Sermetjev, que ocupara a cidade de Polotsk e transformara a igreja em estábulo. O Santo apareceu-lhe, increpando-o de tentar a Deus, que o puniria de modo exemplar.

As aparições de São Casimiro tornaram-se um símbolo da luta contra Moscou e a propagação da igreja cismática russa. Por esse motivo a Rússia czarista votava um ódio implacável ao Santo, cerceando-lhe o culto de todos os modos.

Uma frase em latim, alusiva a São Casimiro bem sintetiza a extraordinária vida do jovem Príncipe polonês neste mundo e sua gloriosa atuação após ter alcançado a bem-aventurança eterna: “Casimiro, admirável na Terra, mais admirável ainda no Céu”.

 

(Revista CATOLICISMO – março/1998 – www.catolicismo.com.br)

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