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foto: Jorge Valenzuela A

 

Carlos Eduardo Schaffer
Austria

Quase um século após a proclamação da república na Áustria, em 21 de novembro de 1918, a esquerda ainda teme a influência da nobreza. Desde o fim de abril último diversos partidos estão se mobilizando para aumentar as penalidades impostas pela Constituição em 3 de outubro de 1919 aos membros de famílias nobres austríacas ou estrangeiras que ousarem utilizar publicamente seus títulos nobiliárquicos e outras honrarias conexas.

Em 3 de outubro de 1919 o Nationalrat (Conselho Nacional, equivalente à Câmara dos Deputados) da República da Áustria decretou, e em 28 de novembro de 2012 confirmou, o seguinte parágrafo da Constituição, ainda vigente:

§ 1. A nobreza, seus privilégios, bem como puras condecorações a ela concedidas, de cidadãos austríacos, ficam abolidos, com exceção dos títulos e honrarias de cargos oficiais, de profissão ou de qualificações artísticas ou cientificas e os privilégios com eles relacionados.
§ 2 Fica proibido utilizar esses qualificativos de nobreza, títulos e dignidades. Infrações serão punidas pelas autoridades governamentais com multas em dinheiro de 20.000 Krone (coroas) ou com seis meses de prisão.
Esta é a até hoje chamada Lei da abolição da nobreza, de certos Títulos e Dignidades, das Ordens Civis de Cavalaria e das Ordens Civis Femininas.

Apesar da rigorosa observância desta lei pelos membros da nobreza, todo austríaco de mínimo grau de instrução sabe quem é o príncipe, o duque, o conde ou o barão da sua região, especialmente em se tratando do interior do país. O prestígio de que goza a nobreza até hoje é muito grande.

É por esta razão que os políticos não ousam eliminar da Constituição os parágrafos relativos à abolição da nobreza, de seus títulos e privilégios, embora não haja qualquer movimento importante que trabalhe pela restauração da monarquia ou da nobreza.

A multa em dinheiro de 20.000 coroas, estabelecida em 1919, tornou-se hoje desprezível por causa da desvalorização das sucessivas moedas adotadas pela Áustria desde a proclamação da república até hoje: Krone (1918), Schilling (1924), Reichsmark (1938), novamente o Schilling (1945) e por fim o Euro (1999). A multa estabelecida em 1919 estaria valendo hoje 14 centavos de Euro. Apesar da insignificância da multa, a lei não é transgredida.

Agora, depois de 100 anos de vigência da lei rarissimamente transgredida, a deputada Daniela Musiol, porta-voz do Partido Verde para questões constitucionais, quer mudá-la. Ela apresentou no Nationalrat um projeto visando pressionar o governo federal a introduzir alterações na lei de abolição da nobreza estabelecendo multas mais elevadas para as pessoas que se apresentarem como nobres e portarem títulos ou honrarias vinculadas àquele estado.

Disse a Sra. Musiol: “Tal multa, tão baixa, não tem mais efeito dissuasório e não impede os infratores da lei de continuar o seu comportamento ilegal.” Em seguida ela se refere ao caráter republicano da Áustria atual.

Mas não é simples modificar a multa de 20.000 coroas, pois o valor está estipulado na Constituição e para modificá-lo é preciso uma maioria de dois terços no Nationalrat. Além disso, a Constituição não prevê a conversão de padrões monetários do Krone em euros.

Barão é obrigado a pagar multa dez centavos

Que a lei não é letra morta mostra-o uma sentença judicial publicada em 2007. A pedido de um órgão administrativo da cidade de Viena, o “cidadão Helmut RB” (o tribunal manteve incógnito o nome do infrator) foi condenando a pagar uma multa de 10 centavos de euro, por ter usado em seu cartão de visitas o título de Barão. É de se notar que a multa máxima de 14 centavos nem sequer foi aplicada.

Na sentença, o tribunal deu a entender ao órgão acusador que considerava permitido por lei a aplicação de multas de qualquer montante, mesmo as de valores não susceptíveis de desencorajar as pessoas a cometer o ato “criminoso”.

O Barão Helmut von RB apelou para o então primeiro-ministro Wolfgang Schüssel. Mas o recurso não foi aceito, por ser considerado “sem relevância”.

A atual pretensão do Partido Verde baseia-se numa “Iniciativa Popular” encabeçada pela deputada Daniela Musiol, que em três anos coletou apenas 31 assinaturas válidas. O projeto de lei por ela apresentado pede que o deputado socialista Josef Ostermayer, chefe de gabinete do primeiro-ministro Werner Faymann e encarregado de questões constitucionais, elabore um texto de lei prevendo multa adequada para o delito.

A Áustria está sendo atualmente governada por uma coalizão entre o SPÖ (Sozialdemokratische Partei Österreichs), Partido Social-democrata da Áustria, majoritário na coalizão, e o ÖVP (Österreichische Volkspartei), Partido Popular da Áustria. Em ambos os partidos o projeto de lei conta com o apoio de certo número de deputados, mas talvez não o suficiente ainda para formar com outros partidos de esquerda a necessária maioria de dois terços.

A iniciativa de Musiols contra a nobreza pode vir a ser coroada de êxito. “Estamos inteiramente abertos a sugestões”, diz o grupo parlamentar dos socialistas do SPÖ. Porque se algo está sob ameaça de punição, então a sanção para este delito deve ter também uma pena significativa.

Um argumento semelhante emite o deputado Wolfgang Gerstl, porta-voz do ÖVP para temas constitucionais. “Sou a favor de um aumento do valor da pena, caso contrário, a lei não faz sentido.” Não há necessidade de uma modificação profunda da lei. É preciso apenas atualizar o valor da multa. “Uma lei sem pena relevante é um tigre de papel sem dentes”, diz Gerstl. Mas acrescenta: “Graças a Deus, a lei hoje não tem relevância. Porque certamente não estamos invadidos por nobres que querem derrubar a democracia.”

No entanto, o chefe do grupo parlamentar dos Neos (Das neue Österreich und Liberales Forum – O Novo Fórum Liberal da Áustria), Nikolaus Scherak, quer que o assunto seja mais debatido: “O que importa é saber se a razão que moveu o legislador ao elaborar a lei ainda existe”, diz ele. “Mas se você chegar à conclusão de que a lei ainda é necessária, então deve-se, na verdade, adaptar a punição.” O escritório do ministro Ostermayer faz saber que o SPÖ quer também esperar as discussões em nível parlamentar para se pronunciar definitivamente.

É bem verdade que não existe na Áustria qualquer movimento proveniente da nobreza para derrubar a democracia. Mas, após quase 100 anos sem existência jurídica, essa classe social, com seus bailes, casamentos e batizados noticiados por toda a imprensa tanto da Áustria quanto do resto do mundo e seus membros ocupando postos importantes na administração de empresas privadas, traz à lembrança de todos os quase 500 anos ininterruptos da gloriosa história da família dos Habsburgos à frente do Sacro Império Romano Alemão e mais de um século à cabeça do Império Austro-Húngaro.

AustriaO Arquiduque Ulrich von Österreich — que pode se chamar simplesmente de Ulrich Habsburg — afirma que a noção de Nobreza não poderá ser apagada da memória do povo austríaco enquanto se continuar ensinando nas escolas que o príncipe Montecuccoli foi chefe vitorioso na batalha contra os turcos, que o Príncipe Eugenio de Saboia [monumento ao príncipe em Viena] libertou a Hungria e várias outras regiões do Império do jugo muçulmano, que o Imperador Francisco José, com apenas 50 mil funcionários, administrou a vida de mais de 350 milhões de súditos divididos em inúmeras etnias e regiões; ao passo que a Áustria de hoje, com apenas um pouco mais de oito milhões de habitantes, emprega mais de 200 mil funcionários públicos!

Seria preciso apagar dos livros e dos programas escolares quase 800 anos de história da Áustria a fim de acabar com a noção de nobreza no povo austríaco.

Alem disso, seria também necessário proibir o fluxo anual de milhões de turistas, que em sua maioria procuram os monumentos históricos — castelos, palácios, igrejas, museus, centros históricos das cidades etc. — que não falam senão do glorioso passado monárquico da Áustria.

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Casamento_princesa_isabel

O Rio de Janeiro está em festas – festas realizadas anteontem e festas adiadas para 24 e 25. O casamento da herdeira da coroa é o assunto do momento.
Um céu puro e um sol esplêndido presidiram no dia 15 a este acontecimento nacional. A natureza dava a mão aos homens; o céu comungava com a terra.
Não descreverei nem a festa oficial nem a festa pública. Quem não assistiu à primeira leu jà a relação dela nos andares superiores dos jornais; na segunda todos tomaram parte – mais ou menos – todos viram o que se fez, em arcos, coretos, pavilhões, iluminações, espetáculos, aclamações e mil outras coisas. E sobretudo ninguém deixou de ver e sentir a melhor festa, que é a festa da alegria íntima, natural, espontânea, a festa do cordial respeito que o povo tributa à primeira família da nação.
Uma das coisas que fez mais efeito nesta solenidade foi a extrema simplicidade com que trajava a noiva imperial. É impossível desconhecer o delicado pensamento que a este fato presidiu, na idade e na condição de Sua Alteza: as suas graças naturais, as virtudes do coração e o amor deste país, são o seu melhor diadema e as suas jóias mais custosas.
(Machado de Assis – Diário do Rio de Janeiro, 17 de outubro de 1864)

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 Paris_Saint-Honoré_d'Eylau1927

Foto: G. Freihalter

Uma admirável e infelizmente pouco conhecida irmã de Luís XVI –– o rei-mártir, vitima da Revolução Francesa ––, falecida a 7 de março de 1802, e em vias de ser beatificada, soube aliar os esplendores de sua ascendência principesca e a condição de rainha com a heroicidade das virtudes

Julio Loredo
Correspondente

Roma – Visitando recentemente uma igreja moderna em Nápoles, chamou-me a atenção a homilia que o sacerdote fazia durante a Missa. Falava ele de uma rainha santa enterrada nessa cidade, figura histórica muito popular entre os napolitanos.

Vivamente impressionado pela personagem, objeto de tanta devoção popular, dirigi-me à velha igreja de Santa Catarina a Chiaia para onde, em número cada vez maior, acorrem os fiéis a fim de venerar os restos mortais de Maria Clotilde de Bourbon, Rainha da Sardenha (1759-­1802), hoje em processo de beatificação.

É evidente que há um trabalho da Providência”, explica-me o Pe. Antonino d’Chiara, jovem e dinâmico vigário de Santa Catarina. “A devoção à Venerável Clotilde de Bourbon estava praticamente moribunda. Porém, de alguns anos para cá, assistimos a uma verdadeira explosão de entusiasmo para com a Rainha perseguida pela Revolução Francesa “.

– “A que atribui o Sr. esta explosão?” , indago curioso.

– “Estamos numa hora histórica muito especial” – responde o sacerdote -; “uma série de preconceitos contra a nobreza estão desaparecendo. Agora começa-se a compreender que pode haver, e de fato houve, muita santidade entre os nobres, mesmo de estirpe real. Eu mesmo estou compreendendo cada vez mais as inter-relações entre nobreza e santidade. A Venerável Maria Clotilde não foi santa apesar de ser rainha. Ela foi santa e rainha. Sua condição de rainha foi vivida com profunda Fé e espírito de sacrifício. Agora esperamos vê-Ia elevada à honra dos altares” .

Maria Clotilde Adelaide de Bourbon nasceu em 23 de setembro de 1759, em meio aos esplendores do Palácio de Versalhes. Neta do Rei Luís XV, filha do Delfim Luís de França, irmã do futuro Rei Luís XVI, Maria Clotilde estava destinada a um porvir à altura de sua condição de princesa real.

Na Corte, a princesinha era como um raio de luz. Escrevendo a sua mãe Imperatriz Maria Teresa, a futura Rainha Maria Antonieta dizia: “A Clotilde é a doçura personificada, composta, sensível e sempre com um sorriso de bondade à flor dos lábios” .

Muito cedo deu mostras de elevada piedade. Aos três anos lia diariamente o Catecismo. Pouco depois, vendo uma tia – a Princesa Luíza, filha de Luís XV – abandonar a vida da Corte para tomar o hábito de carmelita, manifestou o desejo de imitá-la. A razão de Estado, porém, lhe reservara outro destino.

Em 1775, com apenas 16 anos, uniu-se em casamento com Carlo Ema­nuele de Savóia, Príncipe do Piemonte, herdeiro do trono da Sardenha trasla­dando-se para Turim, capital’ de seu novo reino. A Providência lhe foi benigna, pois seu real consorte era também fervoroso católico.

Maria Clotilde logo cativou os corações de seus novos súditos, edificados em ver tanta piedade na jovem princesa vinda da França. As memórias da época são unânimes em ressaltar seu requinte e grandeza, como também sua extraordinária humildade e seu espírito de mortificação. Quando a família real saía à rua para dirigir-se à igreja ou a alguma função de protocolo, o povo se apinhava gritando:

“Vamos ver nossa santa passar!” O próprio Príncipe do Pie­monte freqüentemente pedia que as pessoas se encomendassem à sua esposa, pois “ela é iluminada e mantida pelo Céu” .

“Tanta espiritualidade numa princesa e numa rainha não nos deve espantar” , escreve um biógrafo da santa, o Pe. Giovanni Parisi. “A alta aristocracia e a nobreza em geral conservavam – mesmo nos faustos indispensáveis da vida de corte – ainda íntegros os princípios da moral, da retidão, da devoção à Igreja. Isto é largamente demonstrado pela longa lista de santos e beatos entre as casas reais da Europa. A Casa de Savóia não estava, neste ponto, em último lugar” (1).

Com apenas 24 anos, tendo perdido toda esperança de dar um herdeiro ao trono dos Savóia, de acordo com seu consorte a Venerável fez voto de castidade e decidiu viver com seu esposo na mais perfeita continência. Os dois perseveraram em tal estado até a morte.

Fortaleza diante do tufão revolucionário

A via crucis da Princesa iniciou-se em 1789. Nesse ano, eclodiu a Revolução Francesa que logo começou a perseguir sua família e a trabalhar pela ruína da monarquia estabelecida numa nação cognominada “Filha Primogênita da Igreja” , em nome da liberdade, da igualdade e da fraternidade. Profundamente devotada aos princípios monárquicos e aristocráticos do Ancien Régime, Maria Clotilde sentiu em sua própria pele, embora à distância, as devastações revolucionárias.

Em agosto de 1789, a Assembléia revolucionária votou a abolição dos direitos feudais. Em 1791 foi a vez do trono cair por terra. Sob a pressão de Robespierre, as prisões começam a en­cher-se de inocentes cujo único “delito” era ser aristocrata ou ter sido acusado de manifestar simpatias pela aristocracia. Começava o Terror, cujos ecos abalaram seriamente a saúde da Venerável.

Em fins de janeiro de 1793, terrível notícia: seu irmão, o Rei Luís XVI, fora guilhotinado! Com admirável resignação, Maria Clotilde se retirou a seus aposentos para chorar sozinha. Era o fim de uma época. Meses mais tarde, chega a fatídica informação de que também sua cunhada, a Rainha Maria Antonieta, tinha sido vitimada pelo ódio satânico da Revolução.

Maria Clotilde mal havia se refeito desses golpes, quando lhe é comunicado que sua irmã Mme. Elizabeth, da qual ela ha­via cuidado como mãe após a morte prematura dos pais, tinha sido condenada pelo Tribunal revolucionário de Paris e guilhotinada pelo simples “crime” de ser princesa de sangue real. O próprio Príncipe do Piemonte deu-lhe a notícia. Deixando cair a cabeça, ela apenas suspirou: “O sacrifício foi feito!”, e caiu desmaiada por terra.

Em 1796, a morte do Rei Vit­torio Amadeo III eleva ao trono do Piemonte o piedoso casal. De natureza belicosa, Vittorio Amadeo III morreu em meio à dor de ver seu Reino se esfarelar por causa da Revolução Francesa, e a conseqüente política napoleônica de estender suas metástases revolucionárias por toda a Europa, abatendo velhos tronos e dinastias.

O novo Rei, Carlo Emanuele IV, torna-se logo alvo de muitas conspirações, milagrosamente sobrevivendo a vários atentados. A isto se somava a constante pressão externa das tropas revolucionárias francesas.

Abdicação e exílio em Nápoles

No dia 8 de dezembro de 1798, cedendo à dupla ameaça interna e externa, Carlo Emanuele IV é forçado a abdicar do trono por pressão direta da França. Após ter colocado o Santo Sudário – que fazia parte da herança da Casa de Savóia – em lugar seguro, a família real teve que fugir para o Sul, em meio aos rigores do inverno.

Em Florença, devido a uma triste coincidência, encontram-se os soberanos sardos com o Papa Pio VI, também ele fugitivo das tropas revolucionárias que tinham invadido Roma e proclamado uma espúria República Romana. Caindo aos pés do Pontífice, o Rei exclamou: “Ah, Santo Padre. Benditas as nossas desgraças que nos conduziram aos pés do Vigário de Cristo!”

Após desventuras sem fim, que muito abalaram a saúde da Rainha, o casal instalou-se em Nápoles, capital do Reino das Duas Sicílias, onde foram recebidos oficialmente pelo Rei Ferdi­nando, já então triunfante sobre as forças revolucionárias que o tinham forçado a refugiar-se temporariamente na Sicília.

Em Nápoles, Maria Clotilde afei­çoou-se especialmente à igreja de Santa Catarina a Chiaia, dos padres da Ordem Terceira de São Francisco, fa­zendo-se ela mesma Terceira Franciscana. O povo napolitano, piedoso e entusiasta, a venerava já em vida como santa. Aos que iam visitá-la, Carlo Emanuele dizia: “Venham, mostrar-lhes-ei meu Anjo”

Morte e glorificação

Porém, chegava a hora do supremo sacrifício. Muito debilitada pelas mortificações, golpeada no mais Íntimo pelas más notícias que lhe chegavam de todas as partes sobre o avanço das idéias revolucionárias, a Rainha Maria Clotilde de Bourbon morreu no dia 7 de março de 1802, com apenas 42 anos de idade. Imediatamente, correu a voz pelas estreitas ruas da cidade: “Morreu uma santa! Ditosa ela que se foi ao Paraíso!” (2).

Enterrada na igreja de Santa Catarina a Chiaia, Maria Clotilde foi logo objeto de devoção popular. O Papa Pio VII a declarou “Venerável” já em 1808. Seu processo de beatificação correu fácil e célere até 1844, ano em que foi bruscamente abandonado por razões políticas, ligadas ao papel que a Casa de Savóia teve na unificação italiana.

Mas o tempo foi deitando sua inexorável poeira sobre os acontecimentos. A causa foi retomada em 1972, e levada a feliz termo dez anos mais tarde pelo infatigável Pe. Gabriele An­dreozzi, Postula­dor Geral das causas dos Terceiros Franciscanos. Nesse ano, a Santa Sé promulgou o decreto sobre a heroicidade das virtudes da Venerável Maria Clotilde de Bourbon, abrindo assim o caminho para sua beatificação.

Apreço atual pela nobreza

Confirmando o clima de renovada veneração pela nobreza que se nota um pouco por toda parte, o fluxo de fiéis à igreja de Santa Catarina não faz senão aumentar. Um Comitê de Honra, do qual fazem parte, entre outros, destacados membros da nobreza napolitana, tomou sobre si a tarefa de difundir o culto à ilustre Rainha.

São realmente muitos os que, nesta belíssima cidade espraiada nas encostas do Vesúvio, desejariam ver elevada à honra dos altares a irmã de Luís XVI, o Rei-mártir da Revolução Francesa. A estes se somam, em todo o mundo, as milhares de almas para quem a Venerável Maria Clotilde de Bourbon-Savóia representa uma excelsa síntese da aristocracia proveniente de seu altÍssimo berço e da virtude cristã, fruto de uma piedade que atingiu os páramos da santidade.

Revista CATOLICISMO – Maio/1995

http://catolicismo.com.br/

__________________________________

NOTAS:

1. Pe. Giovanni Parisi, T.O.R., La Vene­rabile Maria Clotilde, Regina di Sar­degna, Tipografia Samperi, Messina, 1992, p. 5.

2. O Rei Carlos Emanuele IV posteriormente refugiou-se em Roma, onde viveu uma vida de recolhimento e oração no noviciado dos jesuítas, em Santo Andrea al Quirinale. Teve uma morte edificante em 1819.

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